quinta-feira, 25 de julho de 2019

Por nenhuma razão que se justifique

-Excusez-moi?

Uma cadeira de rodas, um corpo contorcido, um belo, delicado e jovem rosto, com pequenos óculos redondos e olhos azuis fitando-nos com doçura. Um québécois de souche. Podem me emprestar o celular para eu fazer uma ligação? Nenhum motivo dramático, nenhuma história para nos convencer, apenas um simples e sincero pedido.

Eis o momento, meus caros, em que se perde oportunidade de fazer o bem. O momento em que nosso discurso "desconstruído" das redes sociais se espatifa na desprezível hesitação frente a um pedido inusitado no parque, sob um belo céu azul de verão.

Hesitação, desconfiança, impulso de dizer não por costume, sem motivo minimamente justificável. Me empresta o celular? Não. Por preconceito, individualismo, falta de compaixão, por nenhuma razão, apenas essa monstruosidade construída em nós, dia após dia, a humanidade perdida.

Havia que pôr fim àquele silêncio de segundos que valeram por horas. 
- É que não somos daqui... (verdade) e não temos... huh...
Ele completou minha frase - vocês não têm rede telefônica, entendo - sim, era isso que eu queria dizer, mas não, não era verdade. Era apenas a saída mais fácil, a ânsia de acabar com o desconforto e fazê-lo se afastar levando nossos pecados, amém. Era uma mentira.

Ainda estávamos no mesmo banco, desconhecendo-nos, mudos e paralisados por nossos demônios internos, quando ele voltou sorridente e animado: "Consegui! Estou esperando umas amigas". Aproximou-se vencendo penosamente a pequena elevação até chegar ao nosso lado. Estendeu sem cerimônia a mão retorcida: me chamo M. e vocês? De onde são? Preocupado, perguntou de Bolsonaro, se disse politicamente de centro. Perguntou se jogamos capoeira, sabia dizer Obrigado e Bahia. Perguntou se gostaríamos de compartilhar uma cerveja em lata que tirou da mochila com grande dificuldade. Oferecemos ajuda para abrir a lata, quem sabe assim, a nossa redenção. Não precisa, disse M., com a mesma doçura em seus olhos azuis. Dessa ajuda, ele não precisa.


domingo, 24 de dezembro de 2017

Vida na medida certa

Há os que vêm só pelo calor. Para quem não tem um teto, as poltronas confortáveis em temperatura amena são ideais para um cochilo. Aqui qualquer um pode deixar-se estar e apreciar, da janela, os flocos de neve. Quando o céu abre-se em azul intenso, as temperaturas tornam-se glaciais e a neve cintila e ofusca, antes de derreter-se em lama traiçoeira por todas as calçadas. O inverno é um tempo de poucas opções. Aqui é uma delas.

Há os que chegam com seu material de estudo e espalham-se pelas mesas coletivas. Fogem de lares apinhados de arengas e barulho, ou carregados do silêncio ensurdecedor da solidão. Aqui, há um murmúrio doce e constante, um arrastar de casacos de inverno pendurados no dorso das cadeiras, um vai-vem de folhas de livros. Aqui há vida na medida certa.

Nas manhãs dos dias de semana, os idosos passeiam pelo espaço no seu ritmo, protegidos das perturbações do corre-corre interminável lá de fora, antes que cheguem os adolescentes de capuz ou cílios alongados, a arrastar suas botas molhadas, ávidos pelo acesso à Internet. Nos fins de semana, crianças saltitam com as pilhas de historinhas que vão garantir o seu entretenimento entre quatro paredes e - mal sabem elas - a saúde mental de seus familiares. Aqui acolhe-se a diversidade.

Depois de bater a neve das botas, retomar o fôlego, massagear as extremidades (con)geladas do meu corpo para estimular a circulação do sangue e assoar o nariz que escorre sempre, eu abro a segunda porta e me deixo abraçar pelo calor e cheiro dos livros. Só venho para buscá-los e devolvê-los, mas a vontade é deixar-me ficar sem motivo, contemplando o frio do lado bom da janela, ouvindo o murmúrio da tranquilidade ou o ronco dos sem-teto. Porque aqui, me sinto bem.


 

domingo, 19 de novembro de 2017

O inverno nos despe de muitas vaidades

O inverno nos despe de muitas vaidades. Brincos engancham em cachecóis e machucam quando usamos protetor de orelhas. Anéis incomodam com luvas. Os casacos são grandes e dificilmente valorizam corpos. Gorros de inverno, com seus enormes pompons no topo, são desprovidos de qualquer charme. Botas, para serem eficazes, são volumosas, e devem ser maiores que o nosso número habitual, para serem usadas com meias grossas, tornando-se muitas vezes desproporcionais em relação às pernas finas de tantas moças. Mas não importa, é assim mesmo. O inverno nos despe de muitas vaidades. E há algo de libertador nisso.

A troco de nada

Segura um copo descartável de café. Sua cabeça pende ora para frente, ora para trás. Seu estado deplorável é no entanto incapaz de ocultar a beleza masculina da sua meia idade, uma barba grisalha ainda curta, quase bem cuidada, poder-se-ia dizer. De tênis esburacados, roupa suja, provavelmente entrara no vagão após um domingo sentado em alguma porta de estação de metrô, segurando um copo de papel, apenas. À espera de moedas, a troco de nada. Assim como tantos outros pela cidade, não canta nem toca um instrumento, nada vende, não oferece um serviço, sequer pede. Apenas espera. E agora, ao fim do dia, deixa-se levar ao longo da linha laranja. No sacudir do vagão, abre às vezes os olhos, mirando sem foco o vazio do seu não-futuro.

You need to help me

-Excuse me. You need to help me. 
Ela me abordou na calçada, em um inglês um tanto hesitante. Tinha certa idade, um lenço amarrado na cabeça, um bom celular na mão, óculos escuros. Precisava pegar o ônibus para ir trabalhar, era longe, não dava para ir andando, a filha estava longe também, falou de uma válvula no coração, enfim, tinha esquecido a carteira. Eu podia ter me lembrado de quando duas moças me contaram toda uma história e sumiram com minha câmera fotográfica em Madri, e eu chorei muito, mas em vez disso me lembrei de quando fui comprar ingressos no Teatro Guararapes em Recife e só estava aceitando espécie e eu juntei todo o dinheiro que tinha e faltaram uns centavos, e eu pedi moedas ao próximo da fila. Pedi dado mesmo, na cara de pau, pois não ia pagar uns centavos de volta, e né, que diferença faria... E a pessoa me deu. De cara feia, mas deu.
Enquanto eu tirava minhas moedas da bolsinha para dar à senhora, ela me agradecia e repetia que Deus estava vendo e que ele ia me recompensar, ou algo assim.
Na hora eu quis dizer que não é isso que me motiva a ajudar o próximo, que gostaria de manter as coisas mais no nível humano-humano, da linha do gentileza gera gentileza e vamos fazer um mundo melhor para todos, mas bem... Apenas sorri e disse "no problem", à moda inglesa.

On dit Namastê à son voisin

"That's very good", disse meu professor de ioga, sobre a minha pose do pombo. Depois do mantra Om harmonizar todas as vozes da sala, cumprimentei com Namastê minhas duas vizinhas, sorrimos reciprocamente, e saí na chuva em mais um dia horroroso dessa suposta primavera. Em frente à estação de metrô, uma moça de cabelos azuis, abrindo uma carteira de cigarros, aproximava-se chorando aos soluços do morador de rua que está sempre instalado ali, e que parecia ser seu amigo. No vagão duas crianças asiáticas apontavam e riam de um jovem rapaz que usava batom lilás, vestido preto justo e meias-calça verdes chamativas, e mantinha-se impassível. Ao descer para fazer baldeação, fui abordada por uma moça que tocou meu braço para dizer que "ton manteau est vraiment beau!!" e que ela queria ter um igual, "merci, merci beaucoup", eu respondi, e ela me desejou "bonne soirée". Na minha estação, uma moça que eu nunca tinha visto antes no canto reservado aos músicos tocava um baixo lilás super estiloso, aproximei-me para deixar algumas moedas em sua cestinha, disse "bonsoir", ela respondeu "salut, how are you?", "good, and you?", "good", disse ela em um sorriso agradecido e confiante. Coloquei echarpe, protetor de orelhas, luvas, e saí de novo para andar até em casa na chuva dessa suposta primavera, e coloquei pra tocar a trilha sonora de Glee no meu ipod, porque sim, sou dessas. 

Muito mais do que uma moeda

Vinha ao longo da plataforma cheia, noite avançada da quinta-feira, por vezes tropeçando em seus próprios pés, e suspendendo, a cada dois ou três passos, a cintura da calça jeans frouxa demais. Parecia selecionar aleatoriamente uma pessoa aqui e ali para pedir uma moeda. Ao vê-lo se aproximar, as pessoas baixavam os olhos, mudavam de lugar, fingiam-se distraídas ou ocupadas. 
Mas ela não. Ela não se afastou de sua abordagem próxima demais, encarou-o sem sentir nojo, escutou o que ele tinha a dizer com interesse genuíno. Já ele, desconcertado por ser tratado como ser humano pela moça branca de olhos belamente maquiados, vida ocupada e exercícios físicos regulares, desviou o olhar para o vazio, sentiu vergonha dos seus cabelos em total desalinho, sua barba excessivamente longa, suas roupas sujas, sua pele negra quase cinza de tão empoeirada. Sem pressa, ela guardou o celular no bolso, e abaixou-se para procurar algo na mochila jogada ao chão, uma mania dos canadenses em Montreal. Levantou-se com uma moeda de dois dólares entre o polegar e o indicador, que exibiu como um troféu, na altura dos olhos de ambos. Com um meio sorriso natural em seu rosto ainda jovem, mas já marcado pelo tempo, dada sua pele pálida, ela falou algo como: está vendo essa moeda? Eu vou lhe dar essa moeda. Mas pense bem no que você vai fazer com ela. Ou talvez ela tenha dito, está vendo essa moeda? Pegue essa moeda e vá tomar uma cerveja porque eu não tive happy hour hoje e estava até agora em reunião com o chefe, e a vida deveria ser mais do que isso, você não acha? O senhor que estava próximo aproveitou para também pôr uma moeda na mão do pedinte. Ele seguiu, com sua apatia estampada no rosto, em minha direção. Covardemente, baixei os olhos e ele passou sem me notar. A moça entrou no mesmo vagão que eu e em pensamento eu lhe disse, obrigada por existir.

quinta-feira, 2 de março de 2017

O próximo trem

Acho que ela tinha acabado de descer aos trilhos. A ponto de a situação na estação de Berri-UQAM parecer até normal. A ponto de eu, sem querer, mecanicamente levada pelas mãos da rotina, ter chegado tão perto dela, para esperar o metrô.  Meu sangue parou de circular no momento que a rotina largou minha mão e apontou a mulher que perambulava desajeitamente sobre os trilhos, até dando a impressão de que queria chegar em algum lugar mas não sabia o caminho. Andava com o desespero de quem procura um espaço para pisar entre cadáveres, desconhecendo um ambiente outrora familiar, tropeçando nos próprios pés. Andava como se esse fosse o único caminho que lhe restara.
Madame!!! berraram os funcionários da segurança do metrô que foram chegando, Arrêtez-vous!!! Ne bougez pas!! Ordenavam-lhe que parasse de se movimentar. E eu ainda estava ali, a pouquíssimos metros dela, dois, três?, até que uma das funcionárias como que se lembrando que nós outros existíamos virou-se para nos afastar, Reculez, reculez.
Recuamos, mas ainda podíamos assistir ao macabro espetáculo do desespero que leva uma mulher de meia idade, de sobretudo cor ocre, cabelos crespos presos em um coque alto, agarrada a uma bolsa de mão que talvez ainda contivesse algo de precioso pra ela - uma foto, uma lembrança, um fio de esperança - descer aos trilhos do metrô. Sabendo que, ou pior, esperando que o próximo trem levasse a sua vida. Arrêtez, Madame! eram as palavras mais compreensivas e gentis que os funcionários da segurança, envolvidos em seu próprio desespero, conseguiam dirigir-lhe, aos gritos. Talvez tenham sido treinados a serem rígidos e autoritários com pessoas que tentam se suicidar. Talvez isso funcione. Quem sou eu para saber.
Sob pressão, sentou-se nos trilhos. E chorou. Continuava só, sob o olhar dos funcionários que monitoravam da plataforma. Talvez tenham sido treinados a não se aproximarem de pessoas que tentam se suicidar. Podia ter uma bomba na bolsa, uma arma, não sei. Quem sou eu para saber.
Era negra. Poderia ser imigrante, poderia ser refugiada, canadense de origem não deveria ser. Era negra, tinha os cabelos presos no alto em um coque, um sobretudo, uma bolsa de mão. E chorava sentada nos trilhos do metrô de Montreal, sob o olhar de várias, muitas pessoas que faziam baldeação no horário de pico da estação mais agitada da cidade. Provavelmente já ciente que não seria o próximo trem que iria pôr fim ao seu sofrimento, provavelmente já ciente de que nada iria.
Dois funcionários finalmente desceram, levantaram-na, e levaram-na até a próxima escada de emergência. Desapareceram rapidamente, deixando espaço para os murmúrios entre as pessoas, o disse-me-disse, as especulações, exclamações, queixas, quanto tempo até o próximo trem?
Não muito tempo. Tudo voltou ao normal com uma rapidez impressionante, entramos no trem, e cada um desapareceu também rumo ao seu próprio destino e seu próprio desespero.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Como quem reaprende a viver

Estava logo atrás de mim na aula de zumba. Aproximem-se, disse a professora, tem espaço aqui na frente. Não tenham vergonha. Dei dois passos à frente. Não estava com vergonha, já passei da fase de ter vergonha em aula de ginástica. Apenas acho mais cômodo ficar atrás. Não sei se ela estava com vergonha, mas o fato é que não se mexeu. Na verdade, ela mal se mexeu durante toda a aula. De zumba. O importante é se divertir, disse a professora.

Certamente não foi só a minha atenção que ela chamou. Muito alta e extremamente magra, morena como eu, mais velha que eu alguns anos, olhava a professora atentamente, como se fosse um ser de outro planeta, com suas caras, bocas e exclamações. Olhava esbugalhada, seguia em câmera lenta, com movimentos quase imperceptíveis, como quem reaprende a andar, como quem reaprende a viver. Em uma posição de alongamento com flexão à frente, em que com a cabeça pra baixo meu rosto virou-se pra ela, percebi a absurda finura de suas pernas, com a pele rachada de tão seca. No dorso de cada mão, um pequeno band-aid redondo, desses que se usa quando se tira sangue.

A frase-clichê seja-gentil-com-as-pessoas-pois-nunca-sabemos-a-luta-que-cada-um-está-vivendo ganha um sentido dramático em cidades como Montreal, que têm acolhido pessoas em situação de vulnerabilidade, geralmente refugiadas de guerra. Adicione-se a isso que no Québec (e provavelmente no Canadá de forma geral), pessoas que comprovadamente não podem pagar por um serviço como uma aula de ginástica por exemplo, muitas vezes obtêm acesso gratuito. Sendo assim, a possibilidade daquela mulher atrás de mim numa aula de zumba, com uma aparência extremamente vulnerável e um olhar perdido, com movimentos assustados em câmera lenta, que não parecia sequer compreender o que estava se passando naquela sala de ginástica frenética, ter desembarcado no Québec vinda de uma árdua luta pela sobrevivência, era algo assustadoramente real.

Dois passos pra lá, dois passos pra cá, e a sua casa destruída, braços para o alto, para um lado, para o outro, e os campos de refugiados sem condições de higiene, mexe o quadril e rebola, e a luta física pela comida trazida pelas organizações humanitárias, cruza o pé atrás para o passo básico da salsa, e as travessias de fronteiras, bate palmas três vezes, pedido aceito pelo Québec, o avião, respirem fundo, flexão à frente, o inverno, a neve, o frio, obrigada, até semana que vem.

Eu quis falar com ela. Dizer-lhe que ia ficar tudo bem. Na zumba, e na vida. Que ela ia aprender os passos, de zumba, e também para andar nas calçadas deslizantes de gelo. Que ela poderia cair, muita gente cai, na calçada congelada e na vida, mas que ia se levantar, porque aqui tem a turma do Canadians first, mas também tem muitos que dão a mão. Como a senhorinha que falou com ela ao final da aula, você foi bem, eu não consegui fazer todos os movimentos, é minha primeira aula, não se preocupe, você faz o que você pode, tenha uma ótima noite.

Você faz o que você pode. Tenha uma ótima noite. Obrigada, senhorinha, por falar o que era necessário.

domingo, 27 de novembro de 2016

Naquele dia qualquer

Naquele dia qualquer, comum, ele a viu saltando de nuvem em nuvem. Distraída, pequenina, protegida em seu mundo da lua. Tão distraída estava ela, que nem percebeu quando ele, com doçura, amarrou um fiozinho fino - tão fino, que não se enxerga - em seu tornozelo, pois era tudo que ele alcançava. Com a outra extremidade do fio, ele enlaçou sua própria cintura, e pôs-se a girar seu corpo, lenta, bem lentamente, de forma que ela descesse aos poucos, sem solavancos, suavemente, e, ainda distraída, chegasse até bem perto dele.
E no exato momento em que os olhares se cruzaram - eles não sabem - mas um sentimento que chamam de amor fez o fio passar a ter um comprimento infinito, para que eles pudessem afastar-se um do outro o quanto fosse desejado ou necessário, e puxarem-se de volta um para o outro sempre que a saudade apertasse.
Usaram e abusaram do fio invisível. Às vezes, alguém, em alguma parte do mundo, tropeçava de leve em algo que não se podia ver, mas que cruzava as terras de Paris a Sevilha, de Recife a Cuiabá. Mas era um tropeço tão suave, que era quase um carinho, pois o fio, se não podia ser visto, podia ser sentido e, dirão alguns, que podia até mesmo ser ouvido.
Porém os sussurros que nele viajavam, só os mais distraídos podiam decifrar. Os passarinhos, as borboletas, as libélulas, até mesmo em pousos rápidos, juram ter ouvido ele perguntar se ela topava voltar pra casa um pouco mais cedo. E ela dizer que sim. E ela, um dia, perguntou se ele podia ficar um pouco mais. E ele, disse sim. E ele perguntou se ela podia se apressar um pouco para saírem logo! Ela disse sim - mas há controvérsias! Em troca ela perguntou se ele teria coragem de conhecer seu pai. Mas é claro que ele disse sim.
Entretanto, ao longo dos anos, desde aquele dia qualquer, comum, havia uma pergunta que todos os pássaros distraídos, e as abelhas, e as libélulas, e os vaga-lumes, todos esperavam ouvir. E quando ela veio, o fio estremeceu-se, saiu do chão, causou uma revoada de bichos e folhas, pois ela foi feita em perfeita harmonia, em tom maior para ser feliz, em uníssono, pelos dois, ao mesmo tempo - e quem os conhece sabe que não podia ser diferente. E é claro, que eles disseram: sim.

domingo, 23 de novembro de 2014

Por que alguns são mais iguais que os outros

O segurança puxou-o pelo braço, forçando-o do parapeito para o chão, e enxotou-o com delicadeza suficiente para não aumentar o constrangimento da família de posses que paga seus impostos e tem o direito de aproveitar o recém-inaugurado polo gastronômico do centro histórico do Recife. O direito de saborear o seu temaki, que aquela criança, puxada para baixo, como em tudo na vida, provavelmente não sabe o que é e nunca haverá de saber. Sim, aquele casal, em suas roupas de ciclismo, tem o direito de preservar a sua filhota, de idade semelhante àquele menino sem camisa, do olhar provocador - ameaçador poder-se-ia dizer - que ele impunha sobre os três, exibindo seu torso nu para contrastar com as mangas longas com proteção contra raios solares. Balançando com desleixo seus pés descalços, que nunca irão calçar o tênis da menina, trazido de Miami na última viagem do casal. Não é justo que a pequena seja obrigada a encarar a miséria estampada na cara do menino - mais que isso, aquele olhar agressivo, mau, que certamente poderá traumatizá-la, vai que ela tira os olhos do seu celular touchscreen, e vê... Acenam para o segurança, a criança incomoda, não, não está fazendo nada, mas está sentada ali, incomoda a menina que precisa escolher algo do cardápio para comer, mas não quer, está sem fome, está estafada desse sol do passeio dominical, está entediada com esse celular, já não basta toda essa irritação? Além desse frango mal passado, esse menino ainda inventa de vir sentar-se no batente ao lado dos pés de nossa mesa, com essa insolência estampada na cara, ali, tão perto de nossa filha, que não precisa passar por isso, sinceramente, não precisa.

Para isso está ali o segurança. A área é pública, a cidade revitalizada, a cidade de todos, de todos que têm dinheiro para a proteção UV, para o capacete para ciclismo, para o tênis e o temaki. Para todos que lotam os restaurantes, reclamam do serviço, postam selfies no Facebook, com cuidado para que ali, em segundo plano na foto - como em tudo na vida - não apareça aquele menino, insolente, agressivo, que vem sentar-se no batente do restaurante, para que? Por pura provocação, para estragar o almoço do domingo, para que precisem prestar atenção às bolsas, ao dinheiro, ao cartão. Não se pode aproveitar a cidade do Recife em paz, esse país não tem jeito mesmo.

O segurança puxa o menino para baixo, tenta ser discreto, tenta ser natural, empurra a criança para que desapareça dali, ali não é lugar para uma criança descalça, sem camisa, que ameaça em seu silêncio, que incomoda com seu olhar. Nada fez, sentou-se apenas, sentou-se no chão, claro, porque seus pais, que surpresa, não podem pagar uma refeição naquele restaurante. No mesmo restaurante em que a menina se aborrece com a insistência dos pais para que coma alguma coisa, a mesma menina que se aborrece com o jogo do celular, que já não a entretém mais, a vida é uma chatice.

Sim, ele o faz por provocação, por insolência, por raiva, sim. Ele sabe que vai incomodar, e o que mais resta-lhe a fazer? Ele sabe que não pode estar ali, por mais que as propagandas digam que a cidade é de todos, por mais que não haja um portão, ou uma placa, proibido aos pobres, por mais que não se cobre ingressos, ele não pode estar ali. Mas ele vai, só para provocar, para ver como é passear com a família, como é ter uma família para passear. Para incomodar mesmo, ele vai, vai para ver as pessoas comendo nos restaurantes, vai para dizer que ele existe, e que ele sente raiva. E o que mais ele poderia sentir? Ele se senta aos pés da mesa, no parapeito olhando o mar, ele sabe que será expulso, como em tudo na vida, sem explicação, no fundo, ele sabe que não pode estar ali. E ele sabe que não há explicação.

Mas quem sabe, né. Se ele for um bom menino, estudioso, esforçado, se ele ignorar o fato de que seu pai vende drogas, se ele fingir que não sente falta de um carinho materno, se ele não se incomodar de estudar com o barulho dos irmãos apinhados no mesmo cômodo e os berros dos pais que brigam, se ele decidir frequentar a biblioteca pública e ler muitos livros por iniciativa própria, se ele compreender que é só estudar que tudo se resolve, né, quem sabe assim, ele adquira o dinheiro - ops, o direito - de frequentar as áreas nobres - quer dizer - públicas da cidade de todos.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Yesterday

"Acho que é algo sobre o passado. Algo que acabou..."

Algo que acabou. Foi assim, olho no olho, "vai dar tudo certo", seus olhos cor de castanha, nenhum sinal de lágrimas, nenhum sinal de nuvens, foi assim. Ou foi em um abraço, corpos tão colados, que não passaria um sopro de brisa entre eles, na urgência do momento, no desespero da despedida, foi assim, "vai dar tudo certo", no ouvido, seus cabelos fazendo cócegas no meu rosto, mas cócegas não haveria que pudessem interromper aquele abraço. Ou foi um tête-à-tête, cena de filme, olhos semicerrados, respirações se confundindo, seus lábios roçando os meus em um sussurro, "vai dar tudo certo". Seus lábios roçando os meus. Em um sussurro. Ela já sabia. A mensagem estava escrita em sua mente, mas em vez de dizer acabou, ela disse vai dar tudo certo. Ela disse assim, lábios roçando, cabelos, olhos de castanha, corpos colados, sem sombra de nuvens, tudo junto, ela disse assim. A mensagem chegou no dia seguinte. Até hoje, não sei o motivo.

Não houve motivo. Não me julgue, e nem me culpe. Mas acima de tudo, não me use. Se você fechou as portas do seu coração, não fui eu, foi você. Se você não quis mais sofrer, não quis mais amar, não quis mais chorar, se você jura que nunca mais vai ouvir que vai dar tudo certo, nunca mais vai receber uma mensagem que põe tudo ao chão, que põe tudo em chamas, joga tudo ao alto, nunca mais, não me culpe, não me use. Eu não sou, nem aceito ser, a sua desculpa para não viver. Você não sabe em que frangalhos estava o meu coração quando meus lábios roçaram os seus em um sussurro, quando seu perfume ficou nos meus cabelos e não saía mais, quando passou uma brisa entre nossos corpos, acabou, eu pensei, vai dar tudo certo, eu falei. Você não tem como saber. Com motivo, sem motivo, pouco importa, não é desculpa, não é razão. Isso, é vida. Pra mim, pra você, com motivo ou sem motivo. A despedida, as cócegas, as nuvens, a respiração. A falta de fôlego, o desespero. As nuvens, e o perfume. Não fui eu. Não tenho culpa, nem sou desculpa.

Algo que acabou. Não foi enterrado, queimado, não foi pisado, sobretudo não foi esquecido, foi guardado. Guardado quase com carinho, em uma caixinha de músicas, ou uma caixinha de surpresas, ou uma caixinha com laço de fita azul. Uma fita azul, com a nostalgia dos amores terminados, com a magia dos amores insatisfeitos, e com a insatisfação dos amores negados. "Vai dar tudo certo", se tiver que vir, vai doer menos. Vai dar certo, ou não vai dar, ou vai dar por um tempo, mas vai doer menos. Porque vai estar embrulhado, em uma caixinha, com um laço de fita azul. Porque azul é a cor mais bonita e mais triste que há.




quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Eu soube ali

Eu estava com 31 anos, e o sistema educacional estava falido. Do lado de fora, era escuro. O cheiro dos eucaliptos alternava-se com o de bosta de cavalos. Os cachorros rondavam, amigáveis, em busca de afago ou de alguma fêmea no cio. Soprava um vento frio constante que me jogava os cabelos no rosto e brincava com minhas saias. Lá dentro, os poucos que se viam nos corredores vazios e silenciosos pareciam esperar nada, além do momento de ir embora. As salas de aula eram grandes demais para os gatos pingados que ocupavam uma ou outra carteira. Eu assumia a profissão a mim destinada desde menina. Passava a ser, oficialmente, uma peça atuante do sistema falido.

Éramos, todos, brilhantes. Com doutoramento em curso em instituições de renome, com participação nos melhores congressos internacionais, com publicações nas melhores revistas e passagens pelas melhores universidades. Acostumados a intenso trabalho intelectual, madrugadas de estudo e leituras intermináveis. A nata da nova geração de acadêmicos. Presos em um buraco negro, em que nada parecia funcionar, nada parecia sair do lugar, nada parecia ser feito para dar certo. A nata do sistema falido. A rigor, seria isso.

Tínhamos a missão hercúlea de motivar os alunos desmotivados, engajar os alunos desengajados, convencer os desacreditados, interessar os desinteressados. E a nós, quem motivava? Quem sabe os olhares sonolentos, o silêncio dos corredores, o coaxar dos sapos, a escuridão dos arredores? Ou talvez as repetidas vezes em que nos encontrávamos sozinhos em sala de aula, à espera de alunos que não vinham? Pensando quanto tempo seria sensato esperar, olhando da porta para o relógio, fingindo distrair-se com qualquer coisa, como um celular que não obtinha conexão de qualquer tipo entre as paredes daquele prédio. O prédio do sistema falido.

Foi um ou outro olhar. Uma ou outra mão que me foi estendida, e em que ousei confiar. Não desista de nós, professora, é possível.Tornei-me capaz de vibrar com as pequenas vitórias da sala de aula árida e assustadora. Mínimas, que fossem. Bobas, talvez, mas belas aos meus olhos. Belas, apaixonantes, como nunca eles hão de imaginar. Que um deles entendesse, que outro lembrasse, que outro fizesse. Entre os bocejos e as ausências, eu aprendi a persistir. Por vaidade, por loucura, por amor, por ideologia, ou por tudo isso. Apeguei-me, sofri, desesperei-me sem que eles soubessem, em alguns momentos até mesmo, eu fui feliz. Ali, eu soube que não poderia fazer outra coisa da vida. Eu soube ali. Ali, sentindo o vento nas folhas dos eucaliptos, ouvindo o silêncio dos corredores, andando sozinha na escuridão. Que fosse, eu soube ali. Que fosse ali, sem estrutura, sem sinal de celular, sem computadores, sem lugar decente para comer e às vezes até sem alunos. Eu soube, ali.
  

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Coletivos, automóveis, motos e metrôs

Bairro de Afogados. Saio da escola no meio da manhã. O metrô, vazio e gelado pelo ar condicionado, rapidamente alcança a Estação Recife, onde me espera uma longa fila para fazer a integração. O ônibus chega, e a fila vai entrando, entrando, entrando, como uma linha de formiguinhas conformadas e disciplinadas, até que me vejo espremida, ponderando entre manter meu braço encostado no peito da vizinha, ou fazer mais esforço segurando-me no suporte do teto com as duas mãos. "Fia, me dá a bolsa", diz a jovem sentada à minha frente. Sorrio agradecida e empilho minha mochila e minha bolsa de mão no colo da moça. "Motorista, meu pé tá preso na porta!" grita uma voz masculina ao fundo. Como telefone sem fio, o recado vai passando até conseguir chegar aos ouvidos do motorista. "Abre a porta, motorista, o pé do rapaz tá preso!" "A porta de trás, motorista!!". "Aeeee, valeu!!!". E lá fomos nós, no "Circular (Prefeitura)". Não parecia haver meio de ninguém feito de carne e osso mover-se para qualquer porta daquele ônibus. "Só quero ver como eu vou descer", pensei. E lá fomos nós.

Passamos em frente às chamadas torres gêmeas do Recife, dois espigões de luxo que uma construtora resolveu erguer ao lado dos velhos armazéns cujas calçadas já foram moradas fixas de tantos sem-teto, que vez por outra ainda se deixam ficar por lá. Nós, de dentro do ônibus, podemos ver na garagem do Edifício Pier Duarte Coelho um carro Land Rover. Interessante esta nossa sociedade, pensei. Certamente não é apenas por questões de mérito que o dono desse Land Rover tem um Land Rover e mora no Pier Duarte Coelho enquanto tantas pessoas estão apinhadas aqui dentro do Circular Prefeitura. O tal mérito, defendido a unhas e dentes por aqueles que não suportam os ideais comunistas, o tal mérito que motiva o ser humano. Não tenho nada contra, desde que todos possam partir das mesmas oportunidades. Não é o caso. Quem nasce em uma favela do Recife, ainda que se mate de trabalhar, dificilmente conseguirá comprar um Land Rover e morar no Pier Duarte Coelho.

A arrancada do ônibus me puxa de volta à realidade. As torres gêmeas e seus carros de luxo ficam para trás, uma curva a todos sacode, contraio as mãos para segurar forte e não cair por cima dos vizinhos, decerto faço uma pequena careta de esforço, e surgem as águas do Capibaribe. Que hoje, por bênção, estão de um hipnotizante e ensolarado verde-cintilante. Estamos saindo da estação das chuvas e o dia é belo. Pescadores sentados na calçada ajeitam suas redes enquanto seus barquitos boiam ao sabor do vento. Vejo uma gaivota em voo rasante, com um peixe no bico. "Quem não vai descer, dá um espacinho, por favor!" pede uma voz que se eleva. Afasto-me para um espaço que não existe. Não há melhor lugar para se admirar as águas do Recife que do alto dos ônibus. Sempre há que se achar uma réstia de poesia no mundo para que não se perca a esperança.Vai descer, motorista. Um bom dia a todos.


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Esperando enfim, nada mais além

Associação dos Amigos e Pais de Excepcionais (APAE), Recife, oito da manhã.

Ao sentar-me no corredor da escola, percebi-o contemplativo à janela. Logo ele veio sentar-se ao meu lado, olhando-me sem pudor. -Bom dia, cumprimentei. -Bom dia, você é muito bonita. Sorri, -Obrigada... você estuda aqui? -Não... eu vim pra tentar fazer um curso de primeiros socorros.

E ali, em cadeiras de plástico no corredor da APAE, eu o ouvi. Ele falava com uma certa dificuldade, gaguejava um pouco, -Eu sei como se faz, amarra um elástico no braço, tem que enfiar a agulha no lugar certo. -Você é corajoso, não tem medo não? Ele parava, olhava para o nada, lentamente seus olhos pousavam novamente sobre mim. -Medo? Não tem que ter medo. Não tem por que ter medo. Tem que ficar tranquilo.

Eu o ouvia. E de repente, nada mais importava. Que importam as angústias bobas do meu coração? Que importam os males do mundo, que importa o trânsito de Recife, os buracos nas ruas, que importa o maldito dinheiro. Que importa o maldito dinheiro. -Eu vou ser médico. Vou ser bem de vida. Que importam as aulas da academia, minhas unhas nunca feitas, minhas olheiras permanentes. Que importam as crises econômicas, a ganância, o terrorismo. Ali, ao meu lado, no corredor da APAE, Felipe me falava de seus sonhos. Isso importa.

E de repente me veio uma paz. -Tem que passar um algodãozinho depois, assim... Nada mais importava a não ser ouvi-lo, olhá-lo, compreendê-lo. -Eu sei como se faz. Felipe nunca vai ser médico. Eu sei disso, os profissionais da APAE sabem disso, talvez ele próprio saiba disso. Que importa? Eu estava ali para ouvi-lo.

A professora chegou, convidou-me a entrar no laboratório, despedi-me -Boa sorte, Felipe. Fechamos a porta e ele permaneceu sentado no corredor. Só, a esperar. A esperar pelo seu curso. Pelo seu futuro. Felipe ficou só, à espera dos seus sonhos. -Não tem por que ter medo. Tem que ficar tranquilo. Isto, eu não hei de esquecer.

(A APAE é uma organização social, cujo objetivo principal é promover a atenção integral à pessoa com deficiência intelectual e múltipla, prestando serviços de educação, saúde e assistência social. Na APAE - Recife, funciona o NET (Núcleo de Educação para o Trabalho), que capacita e aloca pessoas com deficiência intelectual em empresas. A APAE precisa de, e recebe doações no Banco do Brasil, Agência: 0007-8, Conta: 10975-4 Telefone: (81) 3426-5556.)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Não há um só remédio em toda a medicina

Prezado terapeuta,

Parece-me, não sei, tenho pensado sobre isso, parece-me que sou daquelas pessoas infelizes por falta de problemas. Sabe, como os nórdicos, que entram em depressão porque não têm do que reclamar? Pronto, mais ou menos assim. Não para me gabar, pois saiba que não sou disso, mas para contextualizá-lo mesmo, já que suponho que irá querer – ou melhor, terá que saber da minha vida, como se o senhor já não estivesse farto de ouvir tanto blá blá blá de pessoas com seus problemas ridículos e suas neuroses e tudo o mais e como se já não estivesse a ponto de dizer ao final da sessão, Get a life!, como se... enfim, o senhor terá que saber da minha vida. Mais uma vida de blá-blá-blás e problemas ridículos. Pois como eu ia dizendo, para contextualizá-lo, eu sou uma pessoa ótima. Auto-estima vai bem obrigada, sou inteligente, culta, bem-sucedida, viajada, não sou a garota de Ipanema, mas você também não é um Tom Jobim, enfim... Eu deveria ser feliz. Minha família é ótima, minha casa é ótima, meu trabalho é ótimo, meu corpo é ótimo, tem gente dormindo na calçada ali na esquina, tem gente sob bombas, tem gente que perdeu o movimento das pernas, tem gente que não ouve, tem gente que fuma, e eu venho aqui, pagar caro pra falar de que? De coisas ridículas.

Eu pareço feliz. Até para mim mesma eu pareço feliz. Não é que eu finja, viu? É que eu pareço mesmo. Mas quando eu me deparo comigo mesma... Olha, eu queria vir aqui dizer que o que mais me aflige são os problemas do mundo, o meio-ambiente, o terrorismo, sei lá. Causas nobres. E o senhor me pergunta, e o que mais te aflige, filha (terapeuta fala assim?)? Causas ridículas. Tenho vergonha de falar. Não combina comigo. Hã? Ah, sim, sigilo profissional, o senhor não vai contar a ninguém, mesmo porque há coisas mais interessantes a serem discutidas com sua esposa em casa do que ah, querida, hoje foi mais uma mocinha aflita lá no meu consultório falando de... coisas ridículas.

Como? Cuidar do meu jardim, que virão as borboletas? Ih, o senhor é de clichês auto-ajudísticos? Pfff... Como? Preconceituosa, eu? Digamos que meu nível de exigência é um tanto alto. Já sei, vai me dizer que a solução está na religião, meditação, respiração, doação, violão, dança de salão, animal de estimação. Não é? Poupe-se desse trabalho doutor, posto tudo isso, eu tenho apenas uma pergunta e deixo-lhe em paz, prometo, nem falo mais, nem penso mais, nem sonho mais, contanto que o senhor me diga, sem mais delongas. Isso passa?

domingo, 13 de março de 2011

E a gente canta o sol de todo dia

Puerto de Huequitos, Peru, 4 da manhã. O "porto" não passa de uma comprida escadaria que leva ao rio. Esperamos o barco sob o silêncio poético de um céu estrelado. De tempos em tempos, um motor rompe a escuridão das águas. Dois homens carregam sobre as costas, uma a uma, intermináveis degraus acima, caixas de madeira que a julgar pelo esforço sobrehumano, devem conter chumbo. Prendem as alças na testa. Inclinam-se. Fraquejam. Arrastam-se. Como escravos de si mesmos.

Iquitos é uma cidade caótica espremida entre rio e floresta, incrustada no coração da Amazônia. A água é de qualidade duvidosa. Pelas calçadas, espalham-se tabuleiros de comida barata, ao redor dos quais uma população despreocupada mata sua fome, em meio ao barulho dos tuc-tucs motorizados que circulam enlouquecidamente pelas ruas. Paira, no voo dos mosquitos, a ameaça permanente de malária, dengue e febre amarela.

Nos vilarejos, sem energia ou água encanada, a subsistência é tirada do rio e da selva. Vê-se nas mulheres lavando roupa nas "quebradas", nos homens trançando palhas para os telhados, nas crianças carregando baldes pesados demais. Crianças. Soltas, por toda parte. Lindas, em seu desleixo. Despenteadas, mal-vestidas, brincando com seus pés nus a precariedade de uma infância que as conduzirá a um futuro de igual pobreza. E ainda assim, seus olhos curiosos parecem felizes. Há uma inexplicável paz na liberdade de uma vida de escassez, no balanço de uma rede, à beira do rio majestoso, à sombra da floresta. As crianças pousam os baldes e brincam a riqueza da natureza.

4.30. Um dos carregadores busca a última caixa. As nuvens agora cobrem todas as estrelas. Uma réstia de luz ameaça iluminar o horizonte. Aumenta o barulho dos tuc-tucs nas ruas. Iquitos acorda aos poucos. Com olhos e ouvidos, vigio o rio com ansiedade. Nem sinal do nosso barco.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Assim como nós perdoamos

A jovem senhorita abordou-me educadamente na sala de espera do consultório, e, com um sorriso, entregou-me o panfleto como quem estava divulgando um evento cultural, ou uma loja de roupas. "Pena de morte, sim", foi a primeira coisa que li, e enquanto ainda tentava entender, ouvi a senhora ao lado dizer "É político, é? Quero não.".

A campanha pela pena de morte no Brasil é a principal proposta do tal político, que se gaba de ser "um corajoso". Para convencer o eleitor, o panfleto traz uma coleção de notícias sangrentas de fazer inveja ao caderno policial da Folha de Pernambuco. Palavras como torturou, matou, esquartejou, e estrupou aparecem grandes e em cores fortes. O candidato propõe, entre outras coisas, a castração química dos estupradores, e seu jargão é "bandido bom é bandido... Antes ele do que você" (assim mesmo, com reticências). Na entrevista transcrita, ele quer, "olho por olho, dente por dente, pagar na mesma moeda".

Na mesma moeda... matar quem mata, esquartejar quem esquarteja, torturar quem tortura... como é que ao recriminar-se tão fortemente tais ações, faz-se uso das mesmas como castigo? Como se pode tomar atitudes semelhantes àquelas tão repudiadas? Descer ao nível dos criminosos, é essa a maravilhosa proposta? O candidato, com sua "coragem", incita a sociedade a tornar-se tão violenta e impiedosa quanto os bandidos, acende o ódio, incentiva as pessoas a agir como os criminosos, no olho por olho, dente por dente. Como se a violência já não estivesse suficientemente banalizada. Tudo isso me apavora. Castração química? Que tipo de punição é essa? Até parece coisa dos nazistas. Desse jeito, onde vamos parar? Deseja o candidato criar uma sociedade em que as pessoas têm em mente atacar as outras para salvar sua pele, pois "antes elas do que você"? O nível e o formato desta campanha me assustam e me enojam.

O meu voto, para isso? Não.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Si jamais tu me demandes jusqu'où je t'aime

Eu, deitada no sofá cama, xícara de chá em mãos, laptop passando um filme. Ela bate na porta, Vim dar boa noite, para logo exclamar Ôoo, tu tá tão bonitinha! em um largo sorriso. É confortável aí? Qual foi o lugar mais confortável em que tu já dormiu? Aninhando-se ao meu lado, Tu se incomoda se eu vir um pouco do filme aqui? Tu comprasse essa xícara? (lá se vai meu filme, mas como posso resistir?) Não, minha amiga me deu. E tu gosta dela? Gosto. E eu tou falando da xícara ou da amiga?

Eu, escovando os dentes. Ela entra, fecha a porta, senta-se para fazer xixi, Taci, quando eu nasci, tu tava no hospital? Tu gostava de mim? Eu era fofinha?

Eu na cozinha. Ela, passando casualmente para a rua, Taci, tu queria ser minha mãe? Queria. Ela pára, surpresa: Sério?

À mesa, para a irmã, Que besteira, não vou poder morar com você. Quando a gente crescer, cada uma vai ter o seu marido.

Entra sorrateiramente no meu quarto, Taci, eu posso te contar o que eu fiz hoje?

Olhando-me bem de perto, com seus olhões, Tu é bonitinha, eu não sei por quê tu não tem namorado.

À mesa, ao ouvir papai pedir para passarem o "advogado" e perceber que nem todo mundo entendeu a piada, Advogado em francês é avocat, que também quer dizer abacate [pausa, silêncio] Eu sei de tudo.

Ela na sua cama agarrada aos seus bichinhos de pelúcia, eu na cama ao lado, Taci... me cobre?

Te amo, corujinha.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Tic-tac

Tic-tac, tic-tac. Maldito relógio na parede. Hoje não durmo. Detesto barulhos repetitivos. Cinco noites, cinco camas diferentes, vários companheiros de quarto. Tic-tac, tic-tac. A simpática senhora indiana ronca na cama ao lado. When are you getting married, me perguntara ela naquela manhã, assim no meio de uma conversa supérflua, entre um gole e outro de chá, do you think you'll find the right man? Tic-tac. Que raios de pergunta é essa, pensei, sorrindo de volta muito simpática como quem não está nem aí, sou mais eu, que coisa mais besta com que se preocupar. Há tantas outras coisas que me pergunto neste momento. Tic-tac, preciso dormir. Às vezes não queria mais tomar nenhuma decisão. Tic-tac, meu coração parece estar sempre em outro lugar. Tic-tac, tic-tac, do you think you'll find the right man? Os olhos dele me perturbaram naquela noite, indecifráveis, quase assustadores. Fitou-me, I hope you get the job. Talvez tenha sido a última vez que nos vimos. Ele me deu um abraço e pulou na bicicleta, e eu, mais uma vez, virei as costas e prossegui. Como se fosse vê-lo de novo na próxima esquina. Pra que dramatizar? Tic-tac. O sol esteve lindo nesta semana em Londres. Tic-tac, não tenho casa, tenho malas. Pessoas queridas espalhadas pelo mundo. Cinco noites, cinco lugares. Where's your heart, eles perguntaram na entrevista. Meu coração parece estar sempre em outro lugar. Tic-tac, tic-tac, detesto barulhos repetitivos. Tantas perguntas, poucas respostas. Do you think you'll find the right man? Tic.