quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Como quem reaprende a viver

Estava logo atrás de mim na aula de zumba. Aproximem-se, disse a professora, tem espaço aqui na frente. Não tenham vergonha. Dei dois passos à frente. Não estava com vergonha, já passei da fase de ter vergonha em aula de ginástica. Apenas acho mais cômodo ficar atrás. Não sei se ela estava com vergonha, mas o fato é que não se mexeu. Na verdade, ela mal se mexeu durante toda a aula. De zumba. O importante é se divertir, disse a professora.

Certamente não foi só a minha atenção que ela chamou. Muito alta e extremamente magra, morena como eu, mais velha que eu alguns anos, olhava a professora atentamente, como se fosse um ser de outro planeta, com suas caras, bocas e exclamações. Olhava esbugalhada, seguia em câmera lenta, com movimentos quase imperceptíveis, como quem reaprende a andar, como quem reaprende a viver. Em uma posição de alongamento com flexão à frente, em que com a cabeça pra baixo meu rosto virou-se pra ela, percebi a absurda finura de suas pernas, com a pele rachada de tão seca. No dorso de cada mão, um pequeno band-aid redondo, desses que se usa quando se tira sangue.

A frase-clichê seja-gentil-com-as-pessoas-pois-nunca-sabemos-a-luta-que-cada-um-está-vivendo ganha um sentido dramático em cidades como Montreal, que têm acolhido pessoas em situação de vulnerabilidade, geralmente refugiadas de guerra. Adicione-se a isso que no Québec (e provavelmente no Canadá de forma geral), pessoas que comprovadamente não podem pagar por um serviço como uma aula de ginástica por exemplo, muitas vezes obtêm acesso gratuito. Sendo assim, a possibilidade daquela mulher atrás de mim numa aula de zumba, com uma aparência extremamente vulnerável e um olhar perdido, com movimentos assustados em câmera lenta, que não parecia sequer compreender o que estava se passando naquela sala de ginástica frenética, ter desembarcado no Québec vinda de uma árdua luta pela sobrevivência, era algo assustadoramente real.

Dois passos pra lá, dois passos pra cá, e a sua casa destruída, braços para o alto, para um lado, para o outro, e os campos de refugiados sem condições de higiene, mexe o quadril e rebola, e a luta física pela comida trazida pelas organizações humanitárias, cruza o pé atrás para o passo básico da salsa, e as travessias de fronteiras, bate palmas três vezes, pedido aceito pelo Québec, o avião, respirem fundo, flexão à frente, o inverno, a neve, o frio, obrigada, até semana que vem.

Eu quis falar com ela. Dizer-lhe que ia ficar tudo bem. Na zumba, e na vida. Que ela ia aprender os passos, de zumba, e também para andar nas calçadas deslizantes de gelo. Que ela poderia cair, muita gente cai, na calçada congelada e na vida, mas que ia se levantar, porque aqui tem a turma do Canadians first, mas também tem muitos que dão a mão. Como a senhorinha que falou com ela ao final da aula, você foi bem, eu não consegui fazer todos os movimentos, é minha primeira aula, não se preocupe, você faz o que você pode, tenha uma ótima noite.

Você faz o que você pode. Tenha uma ótima noite. Obrigada, senhorinha, por falar o que era necessário.

2 comentários:

Rosa disse...

Difícil de se aproximar, precisa coragem até para tentar confortar alguém. Ainda bem que algumas pessoas não têm tantos escrúpulos. Gente do tempo que privacidade só se referia ao que se faz dentro do banheiro.

Aldir Medeiros disse...

Obrigado Taciana!
Boa leitura novamente!!!!!