domingo, 19 de novembro de 2017

O inverno nos despe de muitas vaidades

O inverno nos despe de muitas vaidades. Brincos engancham em cachecóis e machucam quando usamos protetor de orelhas. Anéis incomodam com luvas. Os casacos são grandes e dificilmente valorizam corpos. Gorros de inverno, com seus enormes pompons no topo, são desprovidos de qualquer charme. Botas, para serem eficazes, são volumosas, e devem ser maiores que o nosso número habitual, para serem usadas com meias grossas, tornando-se muitas vezes desproporcionais em relação às pernas finas de tantas moças. Mas não importa, é assim mesmo. O inverno nos despe de muitas vaidades. E há algo de libertador nisso.

A troco de nada

Segura um copo descartável de café. Sua cabeça pende ora para frente, ora para trás. Seu estado deplorável é no entanto incapaz de ocultar a beleza masculina da sua meia idade, uma barba grisalha ainda curta, quase bem cuidada, poder-se-ia dizer. De tênis esburacados, roupa suja, provavelmente entrara no vagão após um domingo sentado em alguma porta de estação de metrô, segurando um copo de papel, apenas. À espera de moedas, a troco de nada. Assim como tantos outros pela cidade, não canta nem toca um instrumento, nada vende, não oferece um serviço, sequer pede. Apenas espera. E agora, ao fim do dia, deixa-se levar ao longo da linha laranja. No sacudir do vagão, abre às vezes os olhos, mirando sem foco o vazio do seu não-futuro.

You need to help me

-Excuse me. You need to help me. 
Ela me abordou na calçada, em um inglês um tanto hesitante. Tinha certa idade, um lenço amarrado na cabeça, um bom celular na mão, óculos escuros. Precisava pegar o ônibus para ir trabalhar, era longe, não dava para ir andando, a filha estava longe também, falou de uma válvula no coração, enfim, tinha esquecido a carteira. Eu podia ter me lembrado de quando duas moças me contaram toda uma história e sumiram com minha câmera fotográfica em Madri, e eu chorei muito, mas em vez disso me lembrei de quando fui comprar ingressos no Teatro Guararapes em Recife e só estava aceitando espécie e eu juntei todo o dinheiro que tinha e faltaram uns centavos, e eu pedi moedas ao próximo da fila. Pedi dado mesmo, na cara de pau, pois não ia pagar uns centavos de volta, e né, que diferença faria... E a pessoa me deu. De cara feia, mas deu.
Enquanto eu tirava minhas moedas da bolsinha para dar à senhora, ela me agradecia e repetia que Deus estava vendo e que ele ia me recompensar, ou algo assim.
Na hora eu quis dizer que não é isso que me motiva a ajudar o próximo, que gostaria de manter as coisas mais no nível humano-humano, da linha do gentileza gera gentileza e vamos fazer um mundo melhor para todos, mas bem... Apenas sorri e disse "no problem", à moda inglesa.

On dit Namastê à son voisin

"That's very good", disse meu professor de ioga, sobre a minha pose do pombo. Depois do mantra Om harmonizar todas as vozes da sala, cumprimentei com Namastê minhas duas vizinhas, sorrimos reciprocamente, e saí na chuva em mais um dia horroroso dessa suposta primavera. Em frente à estação de metrô, uma moça de cabelos azuis, abrindo uma carteira de cigarros, aproximava-se chorando aos soluços do morador de rua que está sempre instalado ali, e que parecia ser seu amigo. No vagão duas crianças asiáticas apontavam e riam de um jovem rapaz que usava batom lilás, vestido preto justo e meias-calça verdes chamativas, e mantinha-se impassível. Ao descer para fazer baldeação, fui abordada por uma moça que tocou meu braço para dizer que "ton manteau est vraiment beau!!" e que ela queria ter um igual, "merci, merci beaucoup", eu respondi, e ela me desejou "bonne soirée". Na minha estação, uma moça que eu nunca tinha visto antes no canto reservado aos músicos tocava um baixo lilás super estiloso, aproximei-me para deixar algumas moedas em sua cestinha, disse "bonsoir", ela respondeu "salut, how are you?", "good, and you?", "good", disse ela em um sorriso agradecido e confiante. Coloquei echarpe, protetor de orelhas, luvas, e saí de novo para andar até em casa na chuva dessa suposta primavera, e coloquei pra tocar a trilha sonora de Glee no meu ipod, porque sim, sou dessas. 

Muito mais do que uma moeda

Vinha ao longo da plataforma cheia, noite avançada da quinta-feira, por vezes tropeçando em seus próprios pés, e suspendendo, a cada dois ou três passos, a cintura da calça jeans frouxa demais. Parecia selecionar aleatoriamente uma pessoa aqui e ali para pedir uma moeda. Ao vê-lo se aproximar, as pessoas baixavam os olhos, mudavam de lugar, fingiam-se distraídas ou ocupadas. 
Mas ela não. Ela não se afastou de sua abordagem próxima demais, encarou-o sem sentir nojo, escutou o que ele tinha a dizer com interesse genuíno. Já ele, desconcertado por ser tratado como ser humano pela moça branca de olhos belamente maquiados, vida ocupada e exercícios físicos regulares, desviou o olhar para o vazio, sentiu vergonha dos seus cabelos em total desalinho, sua barba excessivamente longa, suas roupas sujas, sua pele negra quase cinza de tão empoeirada. Sem pressa, ela guardou o celular no bolso, e abaixou-se para procurar algo na mochila jogada ao chão, uma mania dos canadenses em Montreal. Levantou-se com uma moeda de dois dólares entre o polegar e o indicador, que exibiu como um troféu, na altura dos olhos de ambos. Com um meio sorriso natural em seu rosto ainda jovem, mas já marcado pelo tempo, dada sua pele pálida, ela falou algo como: está vendo essa moeda? Eu vou lhe dar essa moeda. Mas pense bem no que você vai fazer com ela. Ou talvez ela tenha dito, está vendo essa moeda? Pegue essa moeda e vá tomar uma cerveja porque eu não tive happy hour hoje e estava até agora em reunião com o chefe, e a vida deveria ser mais do que isso, você não acha? O senhor que estava próximo aproveitou para também pôr uma moeda na mão do pedinte. Ele seguiu, com sua apatia estampada no rosto, em minha direção. Covardemente, baixei os olhos e ele passou sem me notar. A moça entrou no mesmo vagão que eu e em pensamento eu lhe disse, obrigada por existir.

quinta-feira, 2 de março de 2017

O próximo trem

Acho que ela tinha acabado de descer aos trilhos. A ponto de a situação na estação de Berri-UQAM parecer até normal. A ponto de eu, sem querer, mecanicamente levada pelas mãos da rotina, ter chegado tão perto dela, para esperar o metrô.  Meu sangue parou de circular no momento que a rotina largou minha mão e apontou a mulher que perambulava desajeitamente sobre os trilhos, até dando a impressão de que queria chegar em algum lugar mas não sabia o caminho. Andava com o desespero de quem procura um espaço para pisar entre cadáveres, desconhecendo um ambiente outrora familiar, tropeçando nos próprios pés. Andava como se esse fosse o único caminho que lhe restara.
Madame!!! berraram os funcionários da segurança do metrô que foram chegando, Arrêtez-vous!!! Ne bougez pas!! Ordenavam-lhe que parasse de se movimentar. E eu ainda estava ali, a pouquíssimos metros dela, dois, três?, até que uma das funcionárias como que se lembrando que nós outros existíamos virou-se para nos afastar, Reculez, reculez.
Recuamos, mas ainda podíamos assistir ao macabro espetáculo do desespero que leva uma mulher de meia idade, de sobretudo cor ocre, cabelos crespos presos em um coque alto, agarrada a uma bolsa de mão que talvez ainda contivesse algo de precioso pra ela - uma foto, uma lembrança, um fio de esperança - descer aos trilhos do metrô. Sabendo que, ou pior, esperando que o próximo trem levasse a sua vida. Arrêtez, Madame! eram as palavras mais compreensivas e gentis que os funcionários da segurança, envolvidos em seu próprio desespero, conseguiam dirigir-lhe, aos gritos. Talvez tenham sido treinados a serem rígidos e autoritários com pessoas que tentam se suicidar. Talvez isso funcione. Quem sou eu para saber.
Sob pressão, sentou-se nos trilhos. E chorou. Continuava só, sob o olhar dos funcionários que monitoravam da plataforma. Talvez tenham sido treinados a não se aproximarem de pessoas que tentam se suicidar. Podia ter uma bomba na bolsa, uma arma, não sei. Quem sou eu para saber.
Era negra. Poderia ser imigrante, poderia ser refugiada, canadense de origem não deveria ser. Era negra, tinha os cabelos presos no alto em um coque, um sobretudo, uma bolsa de mão. E chorava sentada nos trilhos do metrô de Montreal, sob o olhar de várias, muitas pessoas que faziam baldeação no horário de pico da estação mais agitada da cidade. Provavelmente já ciente que não seria o próximo trem que iria pôr fim ao seu sofrimento, provavelmente já ciente de que nada iria.
Dois funcionários finalmente desceram, levantaram-na, e levaram-na até a próxima escada de emergência. Desapareceram rapidamente, deixando espaço para os murmúrios entre as pessoas, o disse-me-disse, as especulações, exclamações, queixas, quanto tempo até o próximo trem?
Não muito tempo. Tudo voltou ao normal com uma rapidez impressionante, entramos no trem, e cada um desapareceu também rumo ao seu próprio destino e seu próprio desespero.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Como quem reaprende a viver

Estava logo atrás de mim na aula de zumba. Aproximem-se, disse a professora, tem espaço aqui na frente. Não tenham vergonha. Dei dois passos à frente. Não estava com vergonha, já passei da fase de ter vergonha em aula de ginástica. Apenas acho mais cômodo ficar atrás. Não sei se ela estava com vergonha, mas o fato é que não se mexeu. Na verdade, ela mal se mexeu durante toda a aula. De zumba. O importante é se divertir, disse a professora.

Certamente não foi só a minha atenção que ela chamou. Muito alta e extremamente magra, morena como eu, mais velha que eu alguns anos, olhava a professora atentamente, como se fosse um ser de outro planeta, com suas caras, bocas e exclamações. Olhava esbugalhada, seguia em câmera lenta, com movimentos quase imperceptíveis, como quem reaprende a andar, como quem reaprende a viver. Em uma posição de alongamento com flexão à frente, em que com a cabeça pra baixo meu rosto virou-se pra ela, percebi a absurda finura de suas pernas, com a pele rachada de tão seca. No dorso de cada mão, um pequeno band-aid redondo, desses que se usa quando se tira sangue.

A frase-clichê seja-gentil-com-as-pessoas-pois-nunca-sabemos-a-luta-que-cada-um-está-vivendo ganha um sentido dramático em cidades como Montreal, que têm acolhido pessoas em situação de vulnerabilidade, geralmente refugiadas de guerra. Adicione-se a isso que no Québec (e provavelmente no Canadá de forma geral), pessoas que comprovadamente não podem pagar por um serviço como uma aula de ginástica por exemplo, muitas vezes obtêm acesso gratuito. Sendo assim, a possibilidade daquela mulher atrás de mim numa aula de zumba, com uma aparência extremamente vulnerável e um olhar perdido, com movimentos assustados em câmera lenta, que não parecia sequer compreender o que estava se passando naquela sala de ginástica frenética, ter desembarcado no Québec vinda de uma árdua luta pela sobrevivência, era algo assustadoramente real.

Dois passos pra lá, dois passos pra cá, e a sua casa destruída, braços para o alto, para um lado, para o outro, e os campos de refugiados sem condições de higiene, mexe o quadril e rebola, e a luta física pela comida trazida pelas organizações humanitárias, cruza o pé atrás para o passo básico da salsa, e as travessias de fronteiras, bate palmas três vezes, pedido aceito pelo Québec, o avião, respirem fundo, flexão à frente, o inverno, a neve, o frio, obrigada, até semana que vem.

Eu quis falar com ela. Dizer-lhe que ia ficar tudo bem. Na zumba, e na vida. Que ela ia aprender os passos, de zumba, e também para andar nas calçadas deslizantes de gelo. Que ela poderia cair, muita gente cai, na calçada congelada e na vida, mas que ia se levantar, porque aqui tem a turma do Canadians first, mas também tem muitos que dão a mão. Como a senhorinha que falou com ela ao final da aula, você foi bem, eu não consegui fazer todos os movimentos, é minha primeira aula, não se preocupe, você faz o que você pode, tenha uma ótima noite.

Você faz o que você pode. Tenha uma ótima noite. Obrigada, senhorinha, por falar o que era necessário.