domingo, 18 de outubro de 2009

A felicidade morava tão vizinha

À noitinha, N. desligou o computador. Tinha sido um longo dia de trabalho. Ela encheu um cálice de vinho tinto e colocou-o ao lado do piano, para saboreá-lo entre uma peça e outra. Disse que C. prometera levá-la para jantar, mas estava no bar com os amigos [Ah, que típico... ela pode esperar sentada, talvez ele nem sequer apareça, você vai ver]. Ela serviu-se um pouco mais de vinho, e fomos assistir o mundial de ginástica na TV. Estou com fome, ela disse [Ah, coitada. É besta, hein? Fica aí passando fome enquanto o outro tá lá, tomando uma, nem aí. Mulher é tudo besta mesmo.]. Mas sabe, as coisas não estão fáceis pra ele no trabalho. Ele precisa de uma sessão de reclamações no bar com os amigos. [Sim, essa desculpa morreu de velha. Ouve esse conselho, melhor ligar e mandar ele vir, se não vai morrer é de fome] C. não tardou. N. o recebeu com um sorriso [Mas no fundo, com certeza, ela deve estar louca para pegar uma boa briga]. Ele disse que ela estava linda com seu pulôver de listras azuis [Claro, querendo agradar]. Foram jantar [Aposto que ela ficou de cara feia, ele perguntando o que ela tinha, ela dizendo que não era nada, que estava ótima]. Voltaram rindo e batendo papo, como sempre [O que?? Nem uma discussãozinha?]

N. também sai para beber com os amigos. N. geralmente fica mais bêbada que C. C. viaja para esquiar com o pai. N. acha que estar com alguém sem precisar de papel passado é a maior prova de amor diária que se pode dar. C. até que gostaria de um casamento tradicional. N. apoia tudo que faça C. crescer, e que o faça feliz. C. apoia tudo que faça N. crescer e que a faça feliz. C. cozinha para N. N. cozinha para C. Desconfianças, picuinhas e dependência definitivamente não fazem parte deste relacionamento. Mas eles adoram estar juntos. Se vão ser felizes para sempre, eu não sei. Mas N. e C. são sempre felizes.

Li em algum lugar que somos tão felizes quanto decidimos ser. Vai ver, é verdade.

sábado, 26 de setembro de 2009

Tem certos dias em que penso em minha gente

Às vezes, eu tenho medo de perder a fé. Medo que aqueles que deixam o Brasil porque não há oportunidades, não há condições, não há segurança, não há esperança, me convençam de todos os seus nãos. Medo que aqueles que ficam, mas que só reclamam, porque nada funciona, nada vai pra frente, nada dá certo, nada vale a pena, me convençam de todos os seus nadas. E, juntando os nãos e os nadas que eu vejo e ouço por todos os lados, eu olho pro meu idealzinho, que se encolhe num canto, meio sem resposta, meio sem coragem, quase descrente, mas que ainda me sussurra, um pouco assustado, que há pessoas talentosas, há pessoas que buscam mais do que seu próprio sucesso e seu próprio bem-estar, há pessoas assim que vão ficar, e vão contribuir pra levar o país um pouquinho mais pra frente que seja, cada uma do seu jeito. Como aquela pessoa honesta que se elege e continua honesta; como aquela geração de professores universitários que foi bancada pelo país durante quatro anos para fazer doutorado no exterior e voltou para abrir mais e mais cursos de pós-graduação; como os músicos que criaram orquestras de meninos no interior e em uma das piores favelas do Recife; como o professor que criou um polo de tecnologia no Recife que hoje emprega tantos... A minha fé nestas pessoas, e em mim mesma, é o meu combustível, é o que me leva, é o que me desafia, é o que me inspira. É o que me faz caminhar, votar, brigar, discutir, é o que me faz sorrir. Por isso, eu tenho medo. E se me convencerem de que nada disso adianta?

Há uns meses atrás, uma inglesa radicada em São Paulo veio a Londres e fez uma palestra sobre seu trabalho com educação de crianças surdas. No final, ela contou uma historinha que aprendera no Brasil, sobre o beija-flor que leva água em seu bico para apagar o incêndio da floresta, porque assim se resolvem os grandes problemas, cada um fazendo sua parte. Ou, como cantam Os Saltimbancos, junte um bico com dez unhas, quatro patas, trinta dentes e o valente dos valentes ainda vai te respeitar.

Enquanto eu assistia A orquestra dos meninos, as lágrimas caíam e o medo crescia. O medo de que tudo seja inútil. Mas a história acabou bem - ou melhor ainda, a história não acabou. E por isso meu coração ainda briga para não ser convencido de que é melhor deixar pra lá e dizer ao último que apague a luz ao sair. Pois ainda que eu compartilhe de uma ingênua ilusão, talvez produto de um coração jovem que ainda não se decepcionou o suficiente para desistir, ainda é deste sonho que prefiro viver.

Estou recrutando beija-flores.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

"Metade de mim é a lembrança do que fui. A outra metade, eu não sei."

Eles aprendem cedo. Saem de casa aos 17, 18. Mudam de cidade, ganham o mundo. Aprendem a cozinhar, pagar contas, fazer limpeza, cuidar de si mesmo. E não há volta aos cuidados de mummy & daddy. Cada um se vira e dá conta de si. Homens e mulheres, meninos e meninas, voltam sós da balada nos ônibus noturnos, não dão "um toque no celular" do amigo para avisar que chegaram bem. Ninguém leva ninguém ao ponto do ônibus, as meninas não vão em dupla ao banheiro e os namorados não andam de mãos dadas. Ninguém manda um beijo no final das ligações. Ninguém passa a mão na cabeça de seu ninguém. E assim se aprende a se virar sozinho - mesmo que haja parceiros, amigos, família por perto, as pessoas sabem fazer as coisas so-zi-nhas. No problem, mate.

Eu aprendi. E já não sofro mais. E já não sei mais se isso é ruim ou bom. O que no começo me soava como uma frieza inaceitável, um "tou nem aí" cruel, foi aos poucos alimentando em mim uma crescente e sedutora individualidade. E, como que por vingança, eu levanto a cabeça com um certo orgulho nas ruas, como quem diz, pois bem, eu também não estou nem aí pra vocês. Agora eu também sei me virar.

Por outro lado, é verdade que o bicho-do-mato que eu já era anda sendo tão cevado que está praticamente um monstrinho. Um monstrinho que não entende por quê pelo amor do guarda eu tenho que contar minha vida toda à dona do restaurante somente porque eu sou brasileira e ela também - quando eu gostaria apenas de saborear a minha feijoada. Vem cá, te conheço? Um monstrinho que fica estupefato quando escuto de uma senhora brasileira que acabo de conhecer, em um ambiente profissional, detalhes íntimos sobre a vida pessoal de terceiros. Um monstrinho que me implora para que eu não vá à cabelereira que me chama de "gatchinha" e que vai se espantar e me cobrar explicações para o fato de eu ainda não ter arrumado um namorado.

E tais incursões por ilhotas culturais brasileiras em Londres vêm fazendo crescer em mim um outro tipo de solidão. Como se agora meu olhar fosse estrangeiro em quaisquer terras e em parte alguma eu seja entendida. Porque ainda que agora eu necessite de doses de solidão quase diárias, para ouvir minha música, para observar o mundo à minha volta, para criar e recriar meus sonhos, ou simplesmente ficar em silêncio, sem ter que pensar em alguma coisa pra dizer; mesmo que agora eu tolere ainda menos o constante controle sobre a vida do outro tão comum entre casais brasileiros, mesmo que eu preze cada vez mais o meu direito de ser eu e de ser livre, e de poder ir a um casamento sem pintar as unhas sem que isso cause um escândalo entre todas as mulheres da festa (sim, porque os homens - viva a simplicidade masculina - não iriam nem perceber), ainda assim, não sou e nunca serei como os ingleses.

E aí eu olho, ouço, leio, escuto, e me pergunto: onde é o lugar onde não se fala tanto da vida alheia, mas mesmo assim manda-se um beijo antes de desligar? Onde é que meu namorado vai segurar a minha mão com carinho, e eu nem precise fazer uma escova para acompanhá-lo à sua formatura? Onde vai ser aquela festa a que eu possa ir desacompanhada mesmo que tenha um parceiro fixo e ninguém vai logo achar que tem alguma coisa errada no relacionamento, e no fim da noite alguém vai se oferecer para me acompanhar até o carro?

Quero um picolé de coco na praia com o sol a pino e os amigos, a família, o cachorro e o papagaio em volta, e um chá inglês e uma banheira quente, em um fim de tarde frio, ouvindo as acústicas dos Beatles, melancolicamente sozinha. Pois "tenho fases, como a lua. Fases de andar escondida. Fases de vir para a rua. Perdição da minha vida! Perdição da vida minha! Tenho fases de ser tua. Tenho outras de ser sozinha." (Cecília Meireles)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Eu ando em frente pra sentir saudade

"Sim... estás precisando de algo? com saudade de algo? Pensa se queres que eu leve alguma coisa daqui e me avisa."

Tenho saudade do sol. Me traz um verão? Sabe daqueles em que você sai sem um casaquinho e nem passa frio? Ah, vai, aposto como você acha um facinho, facinho, por aí. Imagina, quando você chegar, e abrir sua mala, e aquele raio brilhante de sol inundar meu quartinho? As meninas vão estranhar a luz forte escapando pela fresta da porta. Vai ser uma sensação!

Tenho saudade do mar. Manda vir Tamandaré. E deixa vir junto o vendedor de doce japonês, o menino do amendoim, aquela moça simpática das castanhas e um carrinho do picolé caseiro Caicó. Espero que passe na alfândega.

Uma rede. Em uma varanda (deixa que a brisa eu arrumo por aqui).

Tenho saudade da Várzea. E de um tempo que nunca voltará. E de uma casa que já não é mais. E de tantas fases da minha vida em um mesmo lugar. Das minhas andanças pro inglês, pra academia, pra escola, pra universidade, para a parada de ônibus do CFCH. Das minhas andanças. Eu e minha música. E sempre alguém para encontrar nos meus destinos, ao longo dos anos. Passa lá na parada? Vê se tem alguma pulseirinha legal em uma das barraquinhas. E antes de ir embora, pega aquela rua que vai do CTG até a igreja, e compra uma tapioca de queijo e leite condensado (pede pra moça caprichar no leite condensado).

O Marco Zero. Com todos os seus reveillons e carnavais.

Manda vir a sorveteria John's ali da Madalena, e diz pro bigodudo reforçar o estoque de banana caramelada.

Minha coleção de DVDs de Chico. Inteira.

Tenho saudade da Ilha do Retiro. Me traz um lugar na arquibancada, com o sol das três da tarde na cara, pra suar e sofrer, como bom torcedor. Me traz um cazá cazá. Eu respondo Sport, Sport, Sport.

Me traz um pedacinho do que fui. Se couber na mala.

Por enquanto é só, se eu lembrar de mais alguma coisa, te aviso. Valeu mesmo e chega logo! :)

sábado, 1 de agosto de 2009

Lá vem o Brasil, descendo a ladeira?

Algumas verdades a serem levadas em consideração
1. Eu acho que os meios de comunicação têm sim, que denunciar, reclamar e dar voz aos menos favorecidos;
2. Eu acho que os menos favorecidos têm sim direito a uma assistência especial do governo até que se estabeleçam condições justas de partida na disputa pelas oportunidades da vida;
3. Eu não acho que os meios de comunicação devam divulgar reportagens que desprezem a minha capacidade de discernimento.

O objetivo da reportagem especial Das palafitas às ilhas de concreto é criticar o programa habitacional da prefeitura do Recife. Que seja. Mas das duas uma: ou os jornalistas foram extremamente infelizes nas escolhas de seus argumentos, ou trata-se de uma tentativa vazia e sem fundamento de ataque barato ao governo (obs: a questão da estrutura dos prédios é um dos poucos argumentos da reportagem que me pareceu válido).

O fato em questão:
- A prefeitura construiu conjuntos habitacionais e para lá transferiu parte das famílias da comunidade de palafitas Abençoada por Deus.





O que diz a reportagem:
- "Em julho de 2008 a prefeitura transferiu menos da metade das familias para um conjunto habitacional".
Ok, há muito mais a ser feito. Nessa comunidade, nas outras comunidades, nas outras cidades, nos outros países. Mas não seria uma boa coisa o fato de que alguém pelo menos fez uma parte?

Tudo bem, vamos em frente. A reportagem então começa a desfilar alguns absurdos identificados no novo conjunto habitacional:
- "o jogo de dominó é improvisado em cima de tábuas que ficam apoiadas nas pernas dos participantes";
- "não bastasse a disputa entre os pequenos" (pela área para jogar bola), "a turma da terceira idade reivindica igualmente o direito de andar pela pracinha"
- depoimento de uma moradora: "eles (as crianças) precisam gastar energia e não têm um balanço sequer!"
- "das flores e plantas ornamentais presentes no dia da inauguração do residencial, sobraram apenas arbustos secos"
- "disseram que o contrato seria entregue nos primeiros meses da transferência, mas nos jogaram às pressas aqui dentro e ainda não temos nada"
- "o consumo de drogas também é grande. Lógico que lá também existia isso, mas não da mesma forma como aqui dentro"

Peraí, minha gente!! Eu sou uma pessoa extremamente privilegiada nesta vida, e jogava dominó no chão na escola (nem tábua a gente tinha). Nos prédios onde morei, nunca houve playground, e em um deles éramos proibidos de entrar no jardim. Até onde eu saiba, isso nunca virou notícia de jornal nem me causou nenhum trauma psicológico.
Se havia belas plantas na inauguração, por que os moradores não cuidaram delas?
O contrato não foi entregue ainda? Ok, isto está errado, mas já não é bom ter um lugar decente para morar? Se eles estão nas palafitas, reclamam (lógico!), se são transferidos pro apartamento, reclamam que são jogados às pressas (ilógico?)!

O ponto é: tuuudo culpa da prefeitura. As plantas morreram? Culpa da prefeitura. As pessoas estão se drogando mais do que nas palafitas (!?!) ? Culpa da prefeitura. Tem violência e sujeira? Culpa da prefeitura. Pois assim encerra o jornalista: "sempre nos dá um aperto no peito em ver o descaso dos governantes com o povo tão sofrido e massacrado pela vida". Ah, pelamordedeus...

Então, a lógica é: a prefeitura constrói prédios e transfere as pessoas. Aí, as crianças não têm onde brincar (ah, porque lá nas palafitas devia ter uma Disneylândia), as pessoas têm que jogar dominó em tábuas (ah que saudade das salas de jogos das palafitas!), as plantas morrem, as pessoas se drogam mais, ou seja, dá tudo errado. Tudo por causa do descaso dos governantes. Conclusão? A que eu tiro dessa reportagem é: o programa habitacional da prefeitura está fazendo um mal danado à população.

Cá com meus botões, no entanto, eu vos confesso... enquanto as pessoas não tiverem acesso a uma educação que lhes permita cuidar do que recebem, compreender a lógica da coisa e organizarem-se em suas comunidades, não vai ter conjunto habitacional que resolva. Como declarou a própria líder comunitária: "é incrível porque é a própria comunidade que quebra tudo". Preciso dizer mais alguma coisa? Ah, sim, a culpa é do governo.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Quanto mais triste, mais bonito soa

Sábado, Notting Hill

Seus movimentos são mínimos. Como se tivessem medo de pisar onde não deviam, bater em alguém ou derrubar algo, ou como se não tivessem direito de ocupar nenhum milímetro fora daquele espaço ali naquela calçada, ou como se alguém pudesse lhes roubá-lo, ou como se não tivessem domínio de seu próprio corpo e alguém os tivesse posto ali, e naquela posição, e a eles nada mais restasse a fazer a não ser cantar, até que voltassem para buscá-los, salvá-los e ajudá-los quem sabe a contar as moedas. Pés juntos demais, pernas um pouco tortas, eles olham meio pra cima, meio pra frente, não, eles olham para o nada. E o que será que veem lá...

Eu vejo a eles. Um segura o violão, o outro segura a capa do violão, para receber as moedas, bem junto a seu corpo, os braços dobrados, as mãos cerradas, como que para que ninguém leve esta capa, nunca, em nenhuma circunstância, por nada neste mundo.

Eu os escuto. Vejo a boca que abre e fecha tímida, medrosa, a ponto de quase não deixar sair a voz fina, fraca. Uma voz que parece vir do coração, resultar de tamanho esforço, de sofrimento, de profunda concentração, para agradar ao máximo, quiçá para não desafinar. Como se pudesse haver alguma punição. Como se pudessem fazer desaparecer todas as moedas.

Passam os passantes. Pra lá, pra cá. Agitados, barulhentos.
E no meio de tudo surgem os acordes de I Will. Mágicos. Lindos. Chego perto, deixo-me por ali, cantarolo bem, bem baixinho, tenho vontade de chorar. Quase bato palmas. Quase chego entre os dois e digo great choice. Quase decido não sair mais dali.

Mas sigo. Sem que eles saibam que eu existo, que passei por ali, que parei, que ouvi, que cantei, que me emocionei, que nunca tinha escutado I Will assim em uma calçada.

E eles seguem. Sem saber que tinham acabado de passar pela minha vida, que iriam virar personagens deste texto, que iriam ser apresentados a vocês leitores, que iriam ser recriados em diversas imaginações.

Os rapazes do olhar perdido de Notting Hill. E o que será que eles veem...

And if I ever saw you, I didn't catch your name, but it never really mattered, I will always feel the same.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

A day in the life

Foi difícil sair do conforto de minha cama com a chuva batendo na janela
("hoje a chuva me acalma e também me faz pensar que se hoje ela se foi, amanhã irá voltar"). Após uns 15 minutos brigando com o despertador, me dirigi à cozinha no meu modo zumbi, com o único intuito de buscar uma colherada do brigadeiro que tinha feito no fim de semana, e voltar para a cama a fim de apreciar minha habitual dose matutina de glicose e cafeína com toda a calma que ela exige.

A trilha sonora que escolhi para o percurso até o lab não podia ser outra: forrozinho do Estakazero, para esticar o clima do show de Falamansa da noite anterior, ainda que depois do êxtase, me invadisse uma romântica melancolia, daquelas que fazem a gente achar tudo lindo e triste ("há muito tempo meu pensamento anda longe, na cidade tão distante que o destino me levou").

No lab, construí de isopor mais um objeto para as crianças usarem na nossa mesa interativa. Pintei de azul, e as gostosas pinceladas me fizeram querer voltar à escola ou virar uma artista. Não é todo dia que se pinta algo.

Almocei na agradável companhia de um colega brasileiro, e no meio da tarde escapei para um chocolate quente com as meninas do doutorado, uma da Grécia, uma do Japão, uma do Kuwait. Nunca pensei que fosse conhecer alguém do Kuwait ("se a vida é pra viver, vamos curtir o momento").

Vi um sapatinho preto na vitrine e quis comprar, mas estava sem dinheiro. Fui à biblioteca e na volta atravessei a Russell Square e a essa altura o sol brigava valentemente com as nuvens negras ("eu quero entender, eu quero entender, por que a roda da vida é assim, se é ruim desistir de alguém, então pior ainda é tentar esquecer").

No fim do dia um colega de Cingapura comentou que estava tarde e perguntou se eu costumava comer na rua ou em casa e depois de responder "em casa" eu fiquei pensando se ele estava muito timidamente procurando companhia pra jantar. Passei no mercado e o que me custou mais caro foram as cerejas e o peito de frango, enquanto as batatas estavam a preço de banana. Pra jantar fiz uma salada de cogumelos, tomates, espinafre e queijo brie, com folhinhas do nosso pezinho de manjericão, e sentei com Nicola em frente à TV. Preparei a famosa cup of tea para nós duas, Chris chegou do futebol com duas cervejas e elogiou minha saia.

No meu mundinho virtual, encontrei pessoinhas queridas e logo logo ficou tarde ("meu bem querer, minha esperança é não sofrer, eu morro, fico triste sem você"). Nem cuidei das roupas que precisam ser lavadas à mão. Amanhã vou experimentar o sorvete de caramelo e canela que Nicola comprou pra mim. Vesti minha camisola com as palavras "no meu coração" em letras grandes e cor-de-rosa, presente de D. Ju. Já já mamãe chega por aqui. Espero que o isopor não chupe a tinta azul. Tenho que ver quando vou devolver o livro. "No meu coração". Tá bom de trocar esses lençóis. Amanhã termino de organizar os resultados dos testes das crianças nem que faça serão. E preciso lavar esse cabelo. Night night, sleep tight. ("e a saudade da terra no meu coração")