Quando eu crescer, quero ter cinco filhas, cujos nomes começarão com L: Lara (ou Lavínia), Letícia, Lívia, Lorena e Luísa. Se o destino decidir que, depois de crescer aguentando dois irmãos pestes que tiraram o sossego da minha infância (meninos, amo vocês!), eu ainda mereço ter filhos homens, seus nomes começarão com V: Vladimir, Vicente, Valentim, Vinícius.
Se minha vida fértil chegar ao fim antes de eu encontrar um pai para todas essas crianças, eu posso seguir os nobres exemplos de pessoas como Madonna e Angelina Jolie, e sair catando pimpolhos mundo afora para montar uma família arco-íris.
Não sei. Pode ser puro preconceito, mas essa campanha save the children do "primeiro mundo" não me desce garganta abaixo, por mais que eu tente engolir. No metrô, exibem fotos de criancinhas geralmente negras, geralmente africanas, um pouco sujinhas, de preferência descabeladas, meio-sorriso artístico com olhos tristonhos, e ao lado uma frase do tipo: "Fulaninho, 3 anos, Cafundós do Judas, quer ser médico." 3 anos e já quer ser médico?!? Fala sério, deve ser superdotado.
Vem cá, nos EUA não existem órfãos não? Tenho certeza que dá pra achar até um pretinho, hein, Madonna! Mas não, tem que ir lá pras brenhas africanas salvar a menininha um pouco sujinha de seu futuro - ou talvez de seu não-futuro. Tribunais, papparazis, mídia, Lourdes Maria, sorria pra foto, filha, ajeite o cabelo, iupiii, uma festa. Save the chidren.
Aí você vai no mercado e tem os produtos Fair Trade, cuja comercialização é supostamente mais vantajosa e justa para com os produtores (sabe, aqueles pobres coitados lá nas brenhas do interior de não sei onde?). Aí você passa no Starbucks e tem o cartaz "nosso café é Fair Trade, juntos podemos ajudar a melhorar a vida dos produtores de café". Daí você compra seu café, senta com seu jornal e acha que está "contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social". Enquanto isso a campanha do Fair Trade chama os países em desenvolvimento de "terceiro mundo" (ainda?!?) e divulga comerciais na TV mostrando os heróis primeiro-mundistas aterrissando nas brenhas e mudando tudo, trazendo o progresso, construindo isso e aquilo, enfim, salvando os pobres coitados de sua ignorância, suas vidas miseráveis, seu não-futuro. Qualquer semelhança com colonização e imposição sócio-cultural não é mera coincidência. Eles sempre sabem o que é melhor. No fundo, é the same old story: sejam os jesuítas catequizando os índios, seja Madonna retirando bebês do inferno africano para um paradisíaco "primeiro mundo", sejam os EUA invadindo o Iraque, é sempre a filosofia save the children. É aquela visão superior, que humilha em vez de motivar, que gera um círculo vicioso em vez de auto-suficiência e independência, que impõe, de mansinho como lobo disfarçado de cordeiro, passando a mão na cabeça dos coitadinhos, mas mantendo-os sob controle.
Não sei... mas não desce. Desculpem-me o ceticismo e amargura, que podem não combinar com minha habitual visão otimista do mundo e das pessoas, mas tem algo errado no ar, na postura, no tom.
Mas como eu ia dizendo, Luísa, Lorena, Lívia, Letícia, Lara. Ou talvez Lavínia.
sábado, 25 de abril de 2009
terça-feira, 14 de abril de 2009
So long, farewell, auf wiedersehen, goodbye
E aí ele me disse acho que não quero mais, e me abraçou, e eu coloquei a mochila nas costas e olhei para trás e ele ainda estava lá, e olhei através da porta de vidro e ele ainda estava lá, e quando não pude mais vê-lo eu chorei. E chorei por dias e meses até que ele veio até mim e disse tenho certeza que não quero mais e me abraçou ao portão como havíamos feito nos últimos cinco anos mas essa era a última vez. E eu fechei o portão e se ele olhou pra trás eu não sei, e eu chorei.
E um dia eu resolvi partir e abracei muitas pessoas mas não chorei e coloquei a mochila nas costas e se eu olhei pra trás... eu não lembro. E no aeroporto-destino não havia abraços para mim nem para ninguém porque lá só há homens engravatados com plaquinhas para Mr Beltrano ou Mr Fulano.
E desde então foram tantos encontros e despedidas por este mundo de meu deus que já não há lugar para lágrimas, mas sempre há a chance de um abraço. Um abraço, um sorriso, mais uma despedida, virar as costas e seguir rumo, olhar pra frente como quem olha para um futuro enigmático e flutuar em uma romântica melancolia e pensar what's next, o que será que será, com quem, onde, quando, como, por quê. E o melhor de tudo é não ter as respostas.
E assim, como dizem Chico & Edu, ir deixando a pele em cada palco e não olhar pra trás.
E nem jamais
Jamais dizer
Adeus.
E um dia eu resolvi partir e abracei muitas pessoas mas não chorei e coloquei a mochila nas costas e se eu olhei pra trás... eu não lembro. E no aeroporto-destino não havia abraços para mim nem para ninguém porque lá só há homens engravatados com plaquinhas para Mr Beltrano ou Mr Fulano.
E desde então foram tantos encontros e despedidas por este mundo de meu deus que já não há lugar para lágrimas, mas sempre há a chance de um abraço. Um abraço, um sorriso, mais uma despedida, virar as costas e seguir rumo, olhar pra frente como quem olha para um futuro enigmático e flutuar em uma romântica melancolia e pensar what's next, o que será que será, com quem, onde, quando, como, por quê. E o melhor de tudo é não ter as respostas.
E assim, como dizem Chico & Edu, ir deixando a pele em cada palco e não olhar pra trás.
E nem jamais
Jamais dizer
Adeus.
domingo, 29 de março de 2009
O de cima sobe e o de baixo desce
Quarta-feira de manhã. Meia hora no trem até Rayleigh. Tempo instável, mas a cada vez que as nuvens se dissipam, um azul esplêndido me hipnotiza. Poucas pessoas nas ruas desta cidadezinha suburbana, como em qualquer outra cidadezinha suburbana da Inglaterra. De tão perfeitinhas, as casas parecem de brinquedo. Flores no parapeito das janelas coloridas festejam a primavera. Portões baixos revelam que não há perigo.
Chego à escola para aplicar um teste em uma turma de adolescentes brancos, sem nenhum rastro de minorias étnicas. Na prepotência de seus 14 anos, as meninas carregam bolsas de madame, exibem seus cabelos escovados e olhos pintados, brincam com os celulares e desprezam a professora. Os meninos tiram gracinhas infantis e fazem bagunça.
Quarta-feira à tarde. De volta a Londres, resolvo explorar uma nova rota para o Tai-Chi. Uma caminhada de uma hora cruzando o bairro de Tower Hamlets, um dos mais carentes da cidade. Nos prédios feios, a proximidade das portas e janelas denuncia o minúsculo tamanho dos apartamentos. Um rapazote toca insistentemente a campainha de um centro comunitário em cujo muro está afixado um cartaz justificando o fechamento temporário do lugar devido ao "comportamento inadequado de certos indivíduos". De repente, me deparo com uma mini fazenda, onde vacas e ovelhas pastam em meio a encombros e lixo. No parque, adolescentes correm loucamente atrás de bolas. Uma feira em seus últimos momentos entulha a calçada com mercadorias baratas.
Todo tipo de minoria étnica cruza-se nas ruas, escancarando seus estereótipos. Negras com seus penteados extravagantes e batons vermelhos gargalham e falam alto. Árabes com suas burcas puxam crianças pela mão, em silêncio. Indianos negociam a cada esquina.
Os centros comunitários oferecem cursos, atividades de lazer, livros, computadores, filmes, jogos, na esperança de apaziguar os ânimos dos adolescentes que andam em gangues a esfaquear-se uns aos outros. Os centros vivem cheios, mas os seguranças atentos são apenas mais uma evidência das tensões que pairam no ar. Tensões de habitantes sem raízes, em busca de uma identidade, vivendo em suas ilhotas culturais em uma Londres de desigualdades. Dizem que Londres não é mais Inglaterra. De fato, nesse ritmo, não vai demorar muito para os ingleses virarem uma minoria étnica em sua própria capital.
Chego à escola para aplicar um teste em uma turma de adolescentes brancos, sem nenhum rastro de minorias étnicas. Na prepotência de seus 14 anos, as meninas carregam bolsas de madame, exibem seus cabelos escovados e olhos pintados, brincam com os celulares e desprezam a professora. Os meninos tiram gracinhas infantis e fazem bagunça.
Quarta-feira à tarde. De volta a Londres, resolvo explorar uma nova rota para o Tai-Chi. Uma caminhada de uma hora cruzando o bairro de Tower Hamlets, um dos mais carentes da cidade. Nos prédios feios, a proximidade das portas e janelas denuncia o minúsculo tamanho dos apartamentos. Um rapazote toca insistentemente a campainha de um centro comunitário em cujo muro está afixado um cartaz justificando o fechamento temporário do lugar devido ao "comportamento inadequado de certos indivíduos". De repente, me deparo com uma mini fazenda, onde vacas e ovelhas pastam em meio a encombros e lixo. No parque, adolescentes correm loucamente atrás de bolas. Uma feira em seus últimos momentos entulha a calçada com mercadorias baratas.
Todo tipo de minoria étnica cruza-se nas ruas, escancarando seus estereótipos. Negras com seus penteados extravagantes e batons vermelhos gargalham e falam alto. Árabes com suas burcas puxam crianças pela mão, em silêncio. Indianos negociam a cada esquina.
Os centros comunitários oferecem cursos, atividades de lazer, livros, computadores, filmes, jogos, na esperança de apaziguar os ânimos dos adolescentes que andam em gangues a esfaquear-se uns aos outros. Os centros vivem cheios, mas os seguranças atentos são apenas mais uma evidência das tensões que pairam no ar. Tensões de habitantes sem raízes, em busca de uma identidade, vivendo em suas ilhotas culturais em uma Londres de desigualdades. Dizem que Londres não é mais Inglaterra. De fato, nesse ritmo, não vai demorar muito para os ingleses virarem uma minoria étnica em sua própria capital.
sexta-feira, 13 de março de 2009
Também quero viajar nesse balão
Porque a mesa lá de casa está verde e amarela com os pés de manjericão e coentro e as flores que N. comprou.Porque Michael Jackson vai fazer um show em Londres no dia do meu aniversário e eu nem gosto de Michael Jackson mas queria dizer que ele vai fazer um show em Londres no dia do meu aniversário. Fora os outros nove, neste mesmo verão.
Porque ao pegar meu exemplar de Fernando Pessoa - Quando fui outro lembrei daquela tarde na Livraria Cultura em que o mesmíssimo exemplar estava em suas mãos e eu o olhava feliz.
Porque C. estava assistindo Juno e por causa disso eu voltei a escutar a trilha sonora do filme que é muito fofa e me traz boas lembranças.
Porque B. me mandou um vídeo de suas escaladas mundo afora que, apesar de ter me deixado com inveja, me divertiu um bocado e deu vontade de ver de novo.
Porque minha lista de pessoas que me tomam por uma indiana cresceu mais um pouco.
Porque minha irmãzinha ficou muito feliz com o cartão gigante de aniversário que mandei pra ela, em formato de urso e cheio de adesivos de gatinhos, e me disse em recado do orkut que iria me "responder pelo correio".
Porque eu quase comecei a dançar no metrô quando a versão em forró do Trio Virgulino para Superfantástico tocou no meu ipod.
Porque ele me contou uma história fascinante, frase a frase pelo gtalk, porque estava no trabalho e "precisava disfarçar", e eu, em fim de expediente, recostada na cadeira e comendo uma laranja, fui criando cada cena em minha imaginação e pensei que eu preferia estar comendo um pastel de calabresa com queijo.
Porque a caminho do King's College atravessei a Waterloo Bridge e avistei o Big Ben e me dei conta que Londres tem suas pequenas maravilhas.
Porque meu professor de Pilates me disse dejame hacer algo e me agarrou os punhos, colou suas costas nas minhas e curvando-se, suspendeu-me sobre si, esticando-me como eu não sabia que podia ser esticada.
Porque um carinha me parou na rua e me mostrando o visor de seu celular perguntou se a mensagem estava escrita corretamente e eu lhe sugeri gentilmente acrescentar um "e" depois do "t" em unfortunatly (sic.).
Porque um amigo me escreveu um email só dizendo que, por nada, bateu uma saudade.
Porque B., quando me escreve, chama-me de Miss P. e eu acho bonitinho, parece que sou uma agente secreta ou uma detetive dos livros de Agatha Christie.E porque, para essa apressadinha aí ao lado, já é primavera em Londres.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Amigos amigos, friends à parte
Daqui a mais um pouquinho, completo um ano no reino de Sua Majestade, the Queen of England. Não é que me sinta em casa (there's nothing like home) mas ouso dizer que consegui preencher o meu celular com um número suficiente de contatos a quem posso recorrer em uma emergência (touch wood!). Parece dramático, mas a sensação de nobody cares ao se aterrissar sozinha em uma terra estranha assusta, e o fato de saber que alguém vai perceber se você desaparecer já é um grande avanço.
No entanto, laços de amizade não se firmam do dia pra noite, especialmente em um caldeirão cultural como Londres. Aqui, todo mundo tem muitos friends. A palavra voa de boca em boca: "a friend from work", "a friend of mine", "I'm meeting some friends", "that's my friend". Friend, porque não tem outra palavra, mas pode ser alguém que você mal conhece. Não deixa de ser uma companhia legal, mas não é aquela pessoa a quem você vai responder "estou péssima" quando ela vier com o casual "tudo bem?". Você vai responder: "tudo bem". E sem maiores detalhes, falar dos diferentes tons de cinza do céu e daquele dia em que fez sol, do casamento da ex-Big Brother que está com câncer e em todos os tabloides, e das suas últimas e próximas viagens. Dá pra se divertir e dar boas risadas, mas entre tantos friends, contam-se os amigos nos dedos.
Quando voltei da França e passei uns meses na minha antiga escola, falei pra minha vó, com quem morava: "M. é minha melhor amiga". Com sua habitual seriedade, vovó retrucou: "Amiga? Você está lá há pouquíssimo tempo... diga que ela é sua melhor colega, mas não sua melhor amiga.". Fiquei triste, pois estava desesperadamente precisando de amigos, mas nada como a sabedoria dos anos. É, vovó, M. nunca passou de uma friend.
Muitos friends cruzam nossos caminhos e por que alguns deles tornam-se amigos é um mistério. Há alguns dias reencontrei, depois de 17 anos sem contato, minha "grande amiguinha" da temporada francesa. Tínhamos apenas 11 anos quando nos separamos, mas nunca hei de menosprezar a força das amizades dos tempos de escola.
Bons tempos de escola, que também me presentearam com um grupinho que, embora hoje espalhado pelo mundo, está, de alguma forma, sempre presente. Paira entre nós um sentimento implícito de "conte comigo". Sim, vamos sempre rir das mesmas piadas, vamos sempre contar as mesmas histórias, e vamos sempre tirar onda uns dos outros. Porque somos amigos de escola. E estenderemos a mão um ao outro sempre que for preciso. Como todas as suas tentativas de me deixar bêbada fracassaram, nunca cheguei a fazer o discurso "amo vocês". Mas é a eles, junto com mais umas pessoinhas muito queridas que encontrei aqui e ali, que dedico esse texto. Por serem mais do que friends of mine.
No entanto, laços de amizade não se firmam do dia pra noite, especialmente em um caldeirão cultural como Londres. Aqui, todo mundo tem muitos friends. A palavra voa de boca em boca: "a friend from work", "a friend of mine", "I'm meeting some friends", "that's my friend". Friend, porque não tem outra palavra, mas pode ser alguém que você mal conhece. Não deixa de ser uma companhia legal, mas não é aquela pessoa a quem você vai responder "estou péssima" quando ela vier com o casual "tudo bem?". Você vai responder: "tudo bem". E sem maiores detalhes, falar dos diferentes tons de cinza do céu e daquele dia em que fez sol, do casamento da ex-Big Brother que está com câncer e em todos os tabloides, e das suas últimas e próximas viagens. Dá pra se divertir e dar boas risadas, mas entre tantos friends, contam-se os amigos nos dedos.
Quando voltei da França e passei uns meses na minha antiga escola, falei pra minha vó, com quem morava: "M. é minha melhor amiga". Com sua habitual seriedade, vovó retrucou: "Amiga? Você está lá há pouquíssimo tempo... diga que ela é sua melhor colega, mas não sua melhor amiga.". Fiquei triste, pois estava desesperadamente precisando de amigos, mas nada como a sabedoria dos anos. É, vovó, M. nunca passou de uma friend.
Muitos friends cruzam nossos caminhos e por que alguns deles tornam-se amigos é um mistério. Há alguns dias reencontrei, depois de 17 anos sem contato, minha "grande amiguinha" da temporada francesa. Tínhamos apenas 11 anos quando nos separamos, mas nunca hei de menosprezar a força das amizades dos tempos de escola.
Bons tempos de escola, que também me presentearam com um grupinho que, embora hoje espalhado pelo mundo, está, de alguma forma, sempre presente. Paira entre nós um sentimento implícito de "conte comigo". Sim, vamos sempre rir das mesmas piadas, vamos sempre contar as mesmas histórias, e vamos sempre tirar onda uns dos outros. Porque somos amigos de escola. E estenderemos a mão um ao outro sempre que for preciso. Como todas as suas tentativas de me deixar bêbada fracassaram, nunca cheguei a fazer o discurso "amo vocês". Mas é a eles, junto com mais umas pessoinhas muito queridas que encontrei aqui e ali, que dedico esse texto. Por serem mais do que friends of mine.
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Por um pouco de crédito
O dia tinha estado lindo, mas para nos lembrar da nossa localização geográfica, São Pedro salpicava-nos umas gotinhas d'água. Vinha eu, absorta em minha música, fones nos ouvidos, protetor de orelhas a cobri-los, andando sem pressa por esta tarde de inverno. Ela me sorriu de longe, e achei que não fosse comigo. Mas ela veio em minha direção e o movimento de seus lábios me obrigou a tirar o protetor de orelhas, tirar os fones dos ouvidos e pedir-lhe que repetisse.
- Sorry... do you have credit?
Pelo sotaque, ela claramente não era britânica. Por me abordar assim no meio da rua, ela claramente não era britânica. Surpreendida, não soube como interpretar a pergunta. Crédito? No banco? Na praça? Na vida? No celular? Batata, no celular. Sem muita filosofia, Taciana. Ali, parada no meio de uma calçada qualquer, ela precisava telefonar e, ó azar, o seu crédito acabara. Entreguei-lhe o meu celular, preparando-me para vê-la sair correndo com ele - não que seja um iphone, muito pelo contrário, mas o que esperar de uma criatura que lhe para na rua pedindo o celular emprestado? Mas em vez disso, ela simplesmente teclou um número, teclou de novo, mas não conseguiu contato. Sugeri-lhe enviar uma mensagem de texto, mas ela, sempre sorrindo, recusou e agradeceu, tocando-me no braço (tocando-me? Definitivamente, ela não era britânica).
Cheguei em casa e relatei o inusitado episódio a minha - britânica - companheira de apartamento, N. Ela me ouviu atônita, mas, britanicamente, evitou maiores comentários. Mais tarde, eis que toca o meu celular, e uma voz de homem pergunta: "você ligou para este número?" "Ah!", respondo eu, "é que uma menina me parou na rua e blá blá blá"; "Ah, ok". Clic.
Assim que desligo, grita N., de seu quarto, em um tom de total reprovação: "eu ouvi isso!!!", emendando: "NUNCA tente ajudar as pessoas."
E cá com meus botões, fiquei pensando se era mesmo essa a moral a ser tirada dessa história.
- Sorry... do you have credit?
Pelo sotaque, ela claramente não era britânica. Por me abordar assim no meio da rua, ela claramente não era britânica. Surpreendida, não soube como interpretar a pergunta. Crédito? No banco? Na praça? Na vida? No celular? Batata, no celular. Sem muita filosofia, Taciana. Ali, parada no meio de uma calçada qualquer, ela precisava telefonar e, ó azar, o seu crédito acabara. Entreguei-lhe o meu celular, preparando-me para vê-la sair correndo com ele - não que seja um iphone, muito pelo contrário, mas o que esperar de uma criatura que lhe para na rua pedindo o celular emprestado? Mas em vez disso, ela simplesmente teclou um número, teclou de novo, mas não conseguiu contato. Sugeri-lhe enviar uma mensagem de texto, mas ela, sempre sorrindo, recusou e agradeceu, tocando-me no braço (tocando-me? Definitivamente, ela não era britânica).
Cheguei em casa e relatei o inusitado episódio a minha - britânica - companheira de apartamento, N. Ela me ouviu atônita, mas, britanicamente, evitou maiores comentários. Mais tarde, eis que toca o meu celular, e uma voz de homem pergunta: "você ligou para este número?" "Ah!", respondo eu, "é que uma menina me parou na rua e blá blá blá"; "Ah, ok". Clic.
Assim que desligo, grita N., de seu quarto, em um tom de total reprovação: "eu ouvi isso!!!", emendando: "NUNCA tente ajudar as pessoas."
E cá com meus botões, fiquei pensando se era mesmo essa a moral a ser tirada dessa história.
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Pisca-alerta
Então, você está no controle. Senhora de si, que maravilha. Papai e mamãe já há algum tempo deram-lhe carta de alforria e agora é com você, big girl. Vai decidir sozinha pra que lado girar o volante. Medo de se perder? So sorry. Os pedestres, os passageiros dos ônibus, os outros motoristas, e até o seu carona vão oferecer ouvidos, ombros e conselhos cuidadosos, mas o caminho você é quem vai ter que decidir. No banco de trás, viaja a Sra. Responsabilidade - ela é toda sua. Grande, ela, né? Pesada... Assusta um pouco? Pois ao lado dela está muito confortavelmente instalado o Sr. Livre-Arbítrio. Ô sujeitinho de duas caras, viu? Faz a maior propaganda enganosa usando e abusando do nome da Sra. Liberdade, e quando você firma contrato, ele larga-lhe a mão e dispara: resolva sozinha, que aqui eu não apito. Sempre em cima do muro esse aí.
Mas acostume-se com eles, porque a Sra. Responsabilidade e o Sr. Livre-Arbítrio irão lhe acompanhando onde você for. Alegre-se! Pelo menos você não estará apenas na companhia da Srta. Solidão, que você trancou no porta-malas, mas que não para de fazer barulho. Então já que seus novos amigos insistem em repetir "você é quem sabe", arrisque, tente, resolva. E depois? Depois deleite-se em satisfação ou afunde-se em arrependimento. E depois ainda, diminua sua euforia ou recupere-se de sua depressão. E no terceiro depois, volte a um estado emocional regular e prepare-se para a próxima decisão na sua estrada.
Quanto mais saídas do giradouro, mais difícil escolher. Essa história de deixar a vida nos levar é uma delícia de comodidade, mas todo caminho se bifurca. E as placas, em vez de indicar claramente um destino, sinalizam apenas uma vaga direção. Aí o coração puxa para um lado, a cabeça empurra pro outro. O anjinho sussura uma opinião, o diabinho arrasta-lhe pela orelha em sentido oposto. E se você não consegue discernir para onde levam os caminhos, é porque eles ainda não existem. E apenas um deles, o sortudo que for escolhido, vai de fato concretizar-se.
Minha última grande experiência com decisões não transcorreu bem como eu esperava. Envolvi-me em uma colisão, girei, rodopiei, fiquei sem norte, perdi-me pelos caminhos e quando dei por mim, tava aqui. No momento, sigo em uma autoestrada, a todo vapor. Mas já posso enxergar a próxima bifurcação. Pra que lado irei ligar o sinal de pisca? Ô Solidão, minha filha, pare com esse barulho que assim não há santo que consiga raciocinar. Responsabilidade, pô, dá um tempo! Livre-arbítrio, vai ver se eu tou ali na esquina! Tenham dó, e deixem-me chegar mais perto. Eu preciso, ao menos, ver as placas.
E em tudo isso vinha eu pensando ao longo do Tâmisa, em uma singela caminhada dominical. "Faz-se o caminho ao andar".
Mas acostume-se com eles, porque a Sra. Responsabilidade e o Sr. Livre-Arbítrio irão lhe acompanhando onde você for. Alegre-se! Pelo menos você não estará apenas na companhia da Srta. Solidão, que você trancou no porta-malas, mas que não para de fazer barulho. Então já que seus novos amigos insistem em repetir "você é quem sabe", arrisque, tente, resolva. E depois? Depois deleite-se em satisfação ou afunde-se em arrependimento. E depois ainda, diminua sua euforia ou recupere-se de sua depressão. E no terceiro depois, volte a um estado emocional regular e prepare-se para a próxima decisão na sua estrada.
Quanto mais saídas do giradouro, mais difícil escolher. Essa história de deixar a vida nos levar é uma delícia de comodidade, mas todo caminho se bifurca. E as placas, em vez de indicar claramente um destino, sinalizam apenas uma vaga direção. Aí o coração puxa para um lado, a cabeça empurra pro outro. O anjinho sussura uma opinião, o diabinho arrasta-lhe pela orelha em sentido oposto. E se você não consegue discernir para onde levam os caminhos, é porque eles ainda não existem. E apenas um deles, o sortudo que for escolhido, vai de fato concretizar-se.
Minha última grande experiência com decisões não transcorreu bem como eu esperava. Envolvi-me em uma colisão, girei, rodopiei, fiquei sem norte, perdi-me pelos caminhos e quando dei por mim, tava aqui. No momento, sigo em uma autoestrada, a todo vapor. Mas já posso enxergar a próxima bifurcação. Pra que lado irei ligar o sinal de pisca? Ô Solidão, minha filha, pare com esse barulho que assim não há santo que consiga raciocinar. Responsabilidade, pô, dá um tempo! Livre-arbítrio, vai ver se eu tou ali na esquina! Tenham dó, e deixem-me chegar mais perto. Eu preciso, ao menos, ver as placas.
E em tudo isso vinha eu pensando ao longo do Tâmisa, em uma singela caminhada dominical. "Faz-se o caminho ao andar".
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